‘‘O verdadeiro problema de todos nós, brasileiros, é que fomos descobertos só pelos estrangeiros.’’
Henrique de Souza Filho – Henfil (1944-1988), cartunista
Juros do medo?
Secretário do Tesouro dos Estados Unidos, Paul O’Neill acaba de jurar por todos os juros que os juros no Brasil, os mais espevitados do mundo, têm a ver menos com a usura dos bancos brasileiros e mais com a paúra dos fundos estrangeiros. A fatia do risco País oscila ao redor de 8%. Contra menos de 3% nos casos do México ou do Chile.
Por quê? A pergunta capciosa, endereçada sexta-feira ao secretário americano, foi de George Soros, megainvestidor global. Que de ingênuo não tem um único níquel. Paul O’Neill não se fez de diplomata e pespegou durante almoço do capital volátil, no rodapé do Fórum Econômico Mundial, em Nova York: o Brasil não tem juízo e a taxa de juro dele virou nossa taxa do medo.
Medo da corrupção, irmã siamesa da gastança pública e da violência civil, suspirou Paul O’Neill. Com a sobremesa: ‘‘O governo e o mercado não respeitam regras de lei. Mais os governos que as empresas. Aliás, se os governos do Brasil fossem iguais às suas empresas, a taxa básica de juros já estaria em 6% e não em 19%.’’
Ouvido no ato pelo Estado, George Soros discordou: se corrupção determinasse pisos de juros no mundo, haveria dezenas de países com taxas básicas acima de 30%. Faltou dizer: se a métrica dos juros é o escandalômetro universal, o caso Enron já teria dobrado a taxa do Fed americano de 1,75% para 3,50%.
A verdade é que, em matéria de juros, o Brasil sabe errar sozinho. Políticas monetárias criogênicas, usinadas pela escola monetarista de Chicago e auditadas pelo FMI desde os anos 80, submetem a economia brasileira a um crédito bancário curto e caro.
O mais curto do mundo, da ordem de 29% do PIB. Nos países organizados e competitivos, incluída a tigrada asiática, essa mesma ração vai de 80% a 140%.
Esse regime bancário anoréxico nada tem a ver com corrupção, violência ou gastança. Países outros, não menos bagunçados, divertem-se com juros civilizados. A menos que se entenda por gastança pública, cúmplice da ganância privada, nossa tolerância coletiva diante de um Estado brasileiro corroído pela ineficiência, pelo desperdício e pelo parasitismo.
O parasitismo desfila carga tributária agora situada bem acima da capacidade contributiva da economia e da sociedade. Pior: extração fiscal sem retorno social. Aí, sim, de pleno acordo: tributos cascateiros recolhidos sem a devolução de serviços públicos adequados vestem a camisa listrada da corrupção cruzada, a do estelionato estatal com a retaliação privada. Esta, feita de sonegação fiscal a céu aberto.
SECOS & MOLHADOS
Estrabismo
- No mais, o mercado centrado em Wall Street ainda exibe cicatrizes das perdas bilionárias com emergentes tipo México, Tailândia, Indonésia, Filipinas, Rússia e Argentina. O Brasil entra nessa lista sem culpa em cartório. Ninguém perdeu dinheiro aqui. Bem ao contrário.
Ocultismo
- O que realmente eleva o risco Brasil no mercado financeiro internacional é a instabilidade das regras do jogo, vulgo insegurança jurídica dos contratos. Ora, num país que não respeita contratos, até o passado acaba sendo imprevisível.
Conformismo
- E o que dizer dos juros internos draculianos na ponta dos tomadores de crédito para produção, giro e consumo? Até quando continuaremos conformados com taxas de até 150% ao ano no rotativo do cartão de crédito ou no cheque especial, mui especial?

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