Joelmir Beting
Qualquer burro consegue derrubar um celeiro. Mas só o carpinteiro é capaz de reconstruí-lo.
Jean-Paul Sartre (1905-1980), filósofo francês
No fio da navalha
O clima de pânico já passou. O risco de contágio, ainda não. É assim que Armínio Fraga, presidente do Banco Central, encaixa o parto de montanha da abertura cambial na Argentina. Com regras duras para a conversão de depósitos e dívidas em dólares e para a liberação fatiada de ativos bancários.
O risco de contágio estaria no curso erradio do ajuste de choque, com direito a bolhas no câmbio e na inflação. Estaria igualmente na adoção sem alternativa de trancos fiscais recessivos para uma economia já atolada na depressão social e no desemprego recorde. Um cenário que aumentaria ainda mais a aflição dos hermanos aflitos. Caldo de cultura sob medida para a ruptura da governabilidade, prova de fogo iniciada pela remoção cirúrgica do governo De la Rúa.
O contágio viria pela percepção ainda não deletada em Wall Street e derivados de que Argentina e Brasil são farinha do mesmo saco. Avaliação já assinada por Paul ONeill, secretário do Tesouro dos Estados Unidos. Que dizem ter um olho de vidro, o direito, com mais calor humano que o esquerdo, o natural.
O cheiro de pólvora partiu das canetas da Corte Suprema ao ajuizar pela inconstitucionalidade da retenção collorida de depósitos bancários, vulgo corralito. O desafio não é de direito coletivo, é de física aplicada. Os bancos argentinos não estão sólidos nem líquidos. Eles são gasosos. Sem massa crítica para suportar a reabertura irrestrita dos saques. Haveria corrida do tipo mão maior que o bolso.
Corrida selvagem. Os argentinos não mais acreditam em regras monetárias de qualquer natureza. Eles confiaram o patrimônio a um regime de conversibilidade cambial, com paridade fixa, sacralizado em decretos presidenciais. Regime agora desmontado em arroubos palacianos por presidentes e ministros encalacrados.
Com 72% dos ativos bancários e 78% dos contratos privados expressos em dólares, os argentinos apostavam menos na desvalorização do peso e mais na dolarização terminal da economia. A adoção do câmbio livre pero no mucho virou jogo do mico. Jogo bruto no qual o governo decreta o deságio e escolhe por decreto quem vai ganhar e quem vai perder.
Os bancos já estão no mato sem cachorro e sem codorna. Com ou sem corrida bancária, o modelito da pesificação adotado pelo governo Duhalde promove o descasamento entre dívidas dolarizadas (conversão de 1 por 1) e depósitos dolarizados (conversão 1 por 1,40). A menos que se adote um Proer do tamanho de US$ 45 bilhões, os bancos argentinos sem cash resvalarão para o crash em bloco.
Secos & Molhados
Taxa de risco
- Se a Argentina conseguir piorar o que já está péssimo, o Brasil terá sua taxa de risco aumentada para mais de 8% dentro do C-Bond, nosso título mais negociado nos dois lados do Atlântico Norte. Nessa hipótese, a Selic não mais poderia contentar-se com menos de 19%.
Máxi do peso
- Admite-se máxi acima de 150% a partir de amanhã, abertura do mercado. O câmbio livre não poderá ser monitorado por intervenções tópicas do Banco Central. As reservas em dólar estão abaixo de US$ 12 bilhões. O capital volátil de fundos externos tomou chá de sumiço desde meados de 2000. E o ingresso do capital produtivo das múltis ensaia baixar a bola murcha de US$ 4,2 bilhões, em 2001, para menos de US$ 2 bilhões, este ano.
Na balança
- Do Brasil, a Argentina passa a importar cada vez menos e a exportar cada vez mais.





