‘‘Certas convicções políticas podem causar mais danos à verdade do que certas mentiras.’’
Friedrich Wilheim Nietzche (1844-1900), filósofo alemão
Guaíba versus Hudson
O mercado tende a ser, inexoravelmente, global. O governo, necessariamente, não. Eis aí armada a arena virtual do conflito afluente entre a economia que se mundializa e a política que se nacionaliza. Até aqui, as primeiras colisões têm gerado mais calor do que luz no rodapé dos poderes nacionais desafiados.
Tanto mais porque as organizações multilaterais montadas e operadas pela confraria universal dos governos nacionais nasceram tortas e cresceram tortas. São megaestruturas burocráticas e ritualísticas, de padrão ONU, com sobras para o FMI e a OMC. Elas não conseguem exercer autoridade regulatória e arbitral para civilizar as relações internacionais entre países soberanos e/ou satélites.
E tome discussão metafísica, disfarçada de construção dialética, sobre os rumos e os prumos da globalização dos mercados e das empresas. Isso ocorre ao largo das tentativas políticas de monitoramento institucional do processo.
Processo, eis a questão. A globalização é um processo da dinâmica capitalista e não um projeto da pax americana pós-Muro. A menos que se atribua à rotunda diplomacia do dólar uma clarividência política excepcional. E ao restante do mundo, uma basbaquice literalmente asinina.
Pois outra não tem sido a cantilena ideológica que encharca de temores o Fórum Econômico Mundial e de rancores o Fórum Social Mundial. O primeiro, parido e nutrido na helvética Davos, instala-se hoje pela primeira vez em Nova York, umbigo do mundo. Ou no coração ferido da opulência capitalista, banhada pelo Hudson. O segundo, questionamento orquestrado do primeiro, desdobra-se igualmente a partir de hoje na oportunista Porto Alegre, borrifada pelo Guaíba.
Fundado em 1971, o Fórum Econômico Mundial esmerou-se em promover a satanização do Estado contemporâneo. Um epicentro de poder tido como ineficiente, anacrônico, viciado, perdulário e parasita. Doutrina encorpada nos anos 90 pelo colapso das chamadas economias de comando, centralmente planificadas e dirigidas.
Armado em 1999, o Fórum Social Mundial prefere investir na satanização do mercado sem bandeira, tido como predatório, truculento, desalmado e excludente. O discurso retoma a clicheria ideológica dos anos 50 para capitular essa tal de globalização como manifestação superior do neo-imperialismo americano, fantasiado de neoliberalismo. Vulgo Consenso de Washington.
Secos & Molhados
Do Hudson
- Para o Fórum de Nova York, o ‘‘think tank’’ de Porto Alegre deveria ocupar-se menos da negação sumária da economia de mercado e mais de uma reflexão aberta sobre as causas da falência da economia de comando. Na edição de 1990, em Davos, o Fórum lavrou em ata: o colapso soviético resultou não do triunfo capitalista, mas do fiasco comunista.
Do Guaíba
- Para o Fórum de Porto Alegre, o fastígio da economia de mercado (dos ricos) não tem contribuído para resgatar da miséria absoluta nada menos de 1,5 bilhão de terráqueos. A exclusão milenar de um quarto da Humanidade sobrevive ao maior excedente econômico da História, estocado nos dois lados do Atlântico Norte.
Do Nobel
- A coluna do meio estaria no ‘‘socialismo fiscal’’ da Escandinávia, modelo mais próximo da sociedade economicamente forte, politicamente aberta e socialmente justa. Com a dica de Gunnar Myrdal, Nobel de Economia: ‘‘A socialização da produção, via estatização, não funciona. A socialização do produto, via tributação, é o caminho.’’
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