Joelmir Beting
A economia só resolve um problema antigo gerando dois ou mais problemas novos.
Albert Hirschman, economista teuto-americano
O canto da sereia
Depois da tempestade vem a inundação. Peça de propaganda institucional da antiga Ligth. Ela entra de carapuça na cabeça dos 36 milhões de argentinos baratinados. A remoção cirúrgica do governo central, com desmanche trapalhão do câmbio fixo pero no mucho, foi a tempestade que já passou. O ajuste transitório, ainda no prelo, é a inundação que mal começou.
O próprio chanceler Carlos Ruckauf, que acaba de namorar para a Casa Rosada uma blindagem política made in Casa Branca, disse domingo em Washington que a Argentina caminha no fio da navalha que separa a megarrecessão de caráter purgativo da hiperinflação de sequela patogênica. Dilema temporal que os 170 milhões de brasileiros definiriam como se ficar a recessão come, se correr a inflação mata.
O plano econômico de salvação nacional, último tango do peronismo populista redivivo, deve ser anunciado no sábado, virada da semana econômica e do mês gregoriano. Data ideal para quebrar contratos da área financeira.
Para os argentinólogos de cabeceira, no Brasil e no mundo, o vizinho corre o risco de se deixar arrastar pelo canto de sereia da indexação ampla, geral e irrestrita. Repeteco do processo que dopou o Brasil de 1964 a 1994. E do qual ainda pagamos o pato até hoje. Também no dialeto verde-amarelo para argentino pensar na cama: indexar e coçar é só começar.
Pelo cheiro da milonga, parece que a Argentina vai mesmo brincar com esse filhote de cascavel, imaginando tratar-se de minhoca graúda. Ela não tem noção da desastrosa experiência brasileira, caçapa cantada por Milton Friedman nos idos de 1974: O instituto da correção monetária é instrumento de primeira classe para economias nacionais de quinta categoria.
Ele se referia, na ocasião, em palestra no Banco Itaú, de Olavo Setúbal, ao uso e ao abuso da indexação de todos os preços e não apenas de determinados contratos. Ainda pior: correção plena da inflação cheia, de aplicação diária, vulgo dolarização informal e festiva de contratos e de preços não cipados. Uma cascavel da espécie inflação inercial, concentradora da renda social.
Sim, havia correção automática do patrimômio e do rendimento de governos, empresas e famílias. Incluída a correção quase plena dos salários em carteira e dos arrimos em banco. A tragédia nacional, até hoje não sopesada pelos doutos da desigualdade social, deu-se na existência de 57% da população brasileira (PNAD 93) sem correção, sem proteção, sem reposição de coisa alguma. Esse massacre consentido durou 30 anos corridos. No período, um IGP-DI acumulado, ponta a ponta, de 1,1 quatrilhão por cento.
Secos & Molhados





