''Nem tudo o que o povo quer é o que o povo precisa.''


Niccolo Machiavelli (1469-1527), filósofo italiano


De catimba em catimba

Crise da competitividade. Crise da conversibilidade. Crise da credibilidade. Crise da governabilidade. Em trote cavalar patacon, patacon, patacon, a Argentina tenta reerguer-se do chão puxando os próprios cabelos. Essa impossibilidade de física aplicada indica que não basta mudar de governo. O crucial é mudar de câmbio.

O problema é que quatro em cada cinco argentinos não admitem a flutuação do peso. Afinal, em abril de 1991 a conversibilidade automática e a paridade fixa foram juradas ao povo em lei de governo, ungida pelo Congresso, então sob domínio peronista. O mesmo peronismo que, por linhas argentinamente tortas, retoma as barras do Congresso e as rédeas do governo. Além, claro, de comandar a maioria das províncias.

Sem desvencilhar-se da armadura cambial, usinada pelo governo Carlos Menem, o governo De la Rúa preferiu enxugar gelo com toalha quente até acabar o gelo. A reconvocação de Domingo Cavallo, o ''pai da criança'', investido de plenos poderes, nada mais fez que espichar a agonia do paciente estrebuchado. Procrastinação irresponsável, no limite da ruptura social e da rebelião coletiva.

Diga-se que os argentinos são do ramo da instabilidade política e das crises de governabilidade. Desde a posse do primeiro mandatário republicano, em 1826, a Argentina teve nada menos de 48 presidentes. Em 175 anos de vida, paixão e sorte, um presidente a cada 3,6 anos. O problema é que apenas 17 dos 48 empossados conseguiram completar o mandato. Houve pelo descaminho 10 renúncias, 11 deposições e meia dúzia de golpes militares.

Agora, no ventre de uma enrascada nacional clamorosa, chegou a vez de a oposição de corte peronista experimentar a receita do próprio pudim, com sustentação popular ressabiada. Entra em campo minado a palavra de ordem maquiavélica do economista canadense John Kenneth Galbraith: o governo provisório (até quando?) obriga-se a realizar uma urgente escolha entre medidas desagradáveis e medidas desastrosas.

Uma corrida contra o relógio digital da ''moratória desordenada'', na expectativa nada diplomática da agência britânica Fitch, impoluta classificadora de riscos alheios. Qualquer que seja a nova alquimia cambial, decreta a Fitch, a Argentina não tem como transformar areia em ouro. Dolarizando, desvalorizando, com ou sem banda de transição, tanto faz: a moratória incondicional está tecnicamente consumada. E, com ela, a estagnação econômica por tempo indeterminado. Com direito a um desgaste político fulminante também do peronismo milongueiro, bravateiro, catimbeiro.

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