Joelmir Beting
''Quem seria o único sujeito capaz de me derrotar? Ora, sem embargo, digo-lhes que sou eu mesmo.''
Domingo Cavallo, ex-ministro argentino da Economia
Cavallo cai da Argentina
Uma vez aberto um saco de gatos, a única maneira de reensacá-los é utilizar um saco três vezes maior. Esse aforisma espanhol cai feito carapuça na cabeça descabelada da Argentina. A ordem está no tripé: soltar o câmbio mumificado, reabrir os saldos bancários e mergulhar na moratória interna e externa.
Ah! A renúncia-demissão do ministro Domingo Cavallo funciona igualmente um refresco político e não como óleo de rícino. Maquiavel explicaria: novas expectativas fraudadas de solução pelo governo são mais incendiárias que velhas necessidades nunca atendidas pela sociedade. Entre outras manifestações da ruptura social, o desfecho desta semana de vigília do Natal: quem não podia fazer saques em banco acabou por fazer saques em loja.
A verdade é que o atarantado governo argentino não mais poderia continuar brincando, impunemente, com desemprego de 20% e com desesperança de 90%. Os pacotaços cavalares do superministro dos Plenos Poderes serviram tão-somente para aumentar a aflição dos aflitos: aprofundar a recessão, que já durava 40 meses sofridos.
Pai da criança desmamada, Domingo Cavallo deixou-se reconvocar com crachá de salvador da pátria. E, como lembraria Millôr Fernandes, ''um povo que precisa de um salvador não merece ser salvo''. A salvação estaria na adoção de políticas bravateiras para a urgente retomada do consumo, da produção e do emprego.
Ocorre que o povo argentino, que no mês passado já exigia em praça pública a cabeça coroada do ministro Cavallo, não admite a quebra cirúrgica da paridade fixa peso/dólar exatamente o DNA da recessão patogênica. Para 79% da população, o governo que trate de fazer a omelete (do emprego) sem quebrar os ovos (do câmbio).
Emplacado em abril de 1991, o câmbio fixo acabou da noite para o dia com a inflação anual de 10.574%, lembram-se? Consumada e consolidada a façanha, a Argentina deveria ter instalado válvulas de escape na panela de pressão da paridade por decreto. Bem ao contrário, orgulhou-se do peso atrelado ao dólar e deu no que hoje está dando um desastre coletivo.
Sem ser profeta do passado, o professor Eduardo Cúria, autor intelectual do plano de conversibilidade clonado pelo então ministro Cavallo, já advertia, em fevereiro de 1993, que o governo Menem não poderia cair na armadilha de transformar em regime permanente o que não deveria ter passado de arranjo transitório. Nenhum modelito de câmbio fixo, em qualquer tempo ou lugar, logrou resistir a um castigo de física aplicada: o da fadiga do material.





