''Os melhores vendedores são artistas. Os melhores artistas são vendedores.''


Edgard Roquete Pinto (1884-1954), pioneiro da radiofonia



Cadê o fim do mundo?

Brilham as luzes natalinas nos 542 shoppings espalhados pelo Brasil das cidades grandes e médias. A iluminação pirotécnica das lojas de rua e de ruas inteiras também nada tem a ver com as sequelas do apagão (que não houve). As catedrais de consumo apelaram para os geradores próprios. Que os eletrocratas preferem chamar de energia distribuída por geração localizada.

O movimento de Papai Noel é surpreendente para um Brasil 2001 que andou literalmente com um pé na cova da frustração coletiva e das catástrofes trombeteadas da energia e do câmbio. Sem contar as escaramuças do escandalômetro brasiliensis, a desaceleração da locomotiva americana, os vexames do futebol dentro e fora do campo, os horrores do terror pelo terror e os contágios rasteiros da crise rosca sem-fim dos hermanos argentinos.

Acrescente-se a tudo isso a quarta vitória consecutiva da oposição pela oposição nas prévias eleitorais e a recaída do complexo da mídia coisa-preta nos rescaldos da mídia chapa-branca. E eis o Brasil de joelhos na travessia de 2001, o ano que não vai acabar nem em 2100.

Ora, fechar o ano com PIB de 2,5% e IPCA de 7,5%, com direito a um consumerismo natalino de 7% a 9% superior ao retemperado Natal de 2000, não deixa de ser uma decepção política para os cenaristas do piorômetro verde-amarelo. Incrustados em bancos, fundos, bolsas, jornais, partidos e igrejas.

Só faltava a balança comercial fechar o ano perdido com saldo positivo de quase US$ 2 bilhões. Ou o dólar chegar a esta trégua de Natal trafegando abaixo de R$ 2,40 caçapa cantada por esta coluna em pleno setembro-negro, moeda americana então valendo R$ 2,80, com viés de alta...

O certo é que dólar abaixo de R$ 2,40 ou mesmo de R$ 2,30 veste a camisa de seda da taxa efetiva real de câmbio. Aquela cotação recalibrada por mercados operando à carga plena, na desova sazonal de escudos cambiais. Desova de fim de ano exigida pelo fechamento de balanços corporativos em reais. Em especial, os demonstrativos de bancos.

Desde o desmanche da banda cambial, por fadiga do material, há exatamente 1.070 dias, o dólar americano desfila valorização nominal de 48% em 1999, de 9,3% em 2000 e de 21% em 2001. Um câmbio de bom tamanho.

Em resumo: o Brasil não acabou em 2001 nem o mundo vai acabar em 2002. Exceto o Afeganistão. Ou a Argentina.

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