Joelmir Beting
''É tolice pensar que o alcoólatra monetário fica feliz quando toma mais um golinho de inflação. Isso só lhe rende uma dor de cabeça danada.''
Armínio Fraga, presidente do Banco Central
A ata não desata
Pelo cheiro da brilhantina, a taxa básica de juros, vulgo Selic, tende a permanecer em 19% ao ano por mais três meses de cautela. Ela retomaria o viés de baixa só na próxima Quaresma. Tempo de sobra para consolidar o declive da inflação e para amortecer eventuais estilhaços cambiais de uma ''solução final'' na Argentina.
Para alojar essa bola sete na caçapa cantada do mercado financeiro, a da manutenção da taxa, o Comitê de Política Monetária (Copom), do Banco Central, faz a última reunião do ano, hoje e amanhã. Ele promete para logo após o Natal a divulgação da ata da reunião. Uma nota oficial que tem sido mais importante, para os leitores de entrelinhas, que a própria reunião.
Os agentes econômicos esperam que a próxima ata desate a confusão destilada pela última: a da previsão, para 2002, de um reajuste gregoriano de 30% nas contas da luz do consumo residencial (que entra no cálculo do IPCA). Segundo o próprio Copom, seria um eletrochoque de 30% sobre o aumento de 20% deste ano de apagão.
Ora, se a Selic deve continuar congelada em 19%, em nome da compressão do IPCA de 7,5% em 2001 para algo próximo de 5% em 2002, que tal esclarecer essa dúvida patogênica? Enquanto o Copom aposta em 30% para a energia, o governo fala em ''menos de 20%'' e o mercado acredita em ''até 15%''. Será que o Copom não consegue bater um papo com a Câmara de Gestão da Crise de Energia?
Se o Copom pensa e age no painel dos juros em nome das metas inflacionárias, a projeção de 30% para a energia só faz por realimentar as expectativas inflacionárias de todo o sistema produtivo, com sobras para a crispação financeira e para a ciclotimia cambial. Liderados pela energia, os reajustes dos preços públicos, com peso 30 na ponderação do IPCA, acumulariam alta de 8,2% no ano que vem, na estimativa do BBV Banco. Isso deixaria para o megabloco dos preços privados, em liberdade, com peso 70, uma bitola estreitíssima, inferior a 2% no ano.
O certo é que o Copom dilatou a Selic para ajudar a refrear a alta do dólar. Como essa alta nominal baixou de 55%, em setembro, para 22% agora em dezembro (média da semana passada), conserva-se a Selic no alto para auxiliar o controle da inflação produzida pelos choques da energia e do câmbio. Só falta confessar: também para emitir sinais, aqui dentro e lá fora, de que o Brasil está vacinado contra um novo contágio da hepatite terminal da Argentina.





