Joelmir Beting
''Boa notícia: o dólar está em queda. Má notícia: o dólar está em queda.''
José Maria de Jesus, doleiro
De Freud a Friedman
Em setembro-negro, quando o dólar empinava o queixo para R$ 2,83, com viés de alta para até R$ 3,10 (houve quem publicasse isso), escrevi nesta coluna que a gente fecharia o ano abaixo de R$ 2,40. Chutei com as duas: em R$ 2,34. Com o grifo: não era aposta nem torcida. Era a antevisão de um ajuste natural de mercado.
Estava na cara que uma desvalorização do real da ordem de 55% no ano, em termos nominais, não teria munição para se sustentar na ionosfera da ''deterioração das expectativas'' dos agentes econômicos alarmados, emocionalmente chantageados por cenários ou projeções alarmistas. A carpintaria compulsiva da casamata cambial, por bancos e empresas, teria limite físico na percepção tardia da própria lógica do absurdo: maior o medo, maior o dólar, maior o risco, maior o mico.
E tome a reabertura da discussão metafísica: qual seria a taxa efetiva real de câmbio, vulgo ''taxa de equilíbrio'', nesta altura do calendário? Pois já se fala exatamente em R$ 2,34. Por qual metodologia? A da chutometria cambial de sempre, no rodapé de um mercado tipo bolsa que não pode, não sabe nem quer ser técnico.
Única certeza: quando o dólar dispara, ninguém se lembra de denunciar o artificialismo da alta. Boa penca dos analistas do mercado financeiro prefere apontar para a ''quebra de confiança'' dos mercados nos rumos e nos prumos da economia e da política. Sem contar, claro, a importação intermitente das neuras alheias.
A recíproca não é verdadeira. Quando o dólar despenca, saem todos em revoada, espancando o ''otimismo exagerado'' destilado pela recuperação ''ainda incerta'' de certos indicadores econômicos ou de certas inclinações políticas. Por essa ótica, a alta é técnica, a baixa é frívola.
Pelo sim, pelo não, o efeito manada para o alto igualmente funciona para baixo, como já foi lembrado aqui dezenas de vezes. Ou seja: a) expectativa de alta (do dólar) provoca a alta, que sanciona a expectativa; b) expectativa de baixa (do dólar) provoca a baixa, que sanciona a expectativa.
Minha cartomancia cambial chegou a produzir irritação em certos doutos do mercado que se manifestaram por e-mail ou a viva-voz em eventos corporativos dos quais tenho participado como palestrante ou debatedor. Na maioria, investidores e analistas encharcados de álgebra em causa própria. Sentados por sobre uma montanha de ''hedge'' desfocado e inútil.
Ou como resumiu, segunda-feira, durante palestra no Rio, o presidente do Banco Central, Armínio Fraga, entre dois suspiros de psicanálise monetarista: projeções pessimistas são automaticamente auto-realizáveis; as otimistas, não. Freud explica? Nem Friedman.





