Joelmir Beting
''Má notícia: a Argentina vai de mal a pior. Boa notícia: o desfecho é antes do Natal.''
Norberto Danubio, economista argentino
Impasse cavalar
Domingo Cavallo retornou de Washington com o pires vazio. Com um olho de vidro, o direito, emitindo mais calor humano que o olho natural, o esquerdo, o FMI negou-se a injetar óleo canforado nas veias do sócio estrebuchado. Lógica bancária pura: empresta-se um guarda-chuva ao mutuário sem capacete e toma-se-lhe o guarda-chuva de volta exatamente quando começa a chover.
Desde as quebras da Rússia e do Equador, o ''board'' do FMI vem combatendo o chamado ''moral hazard''. Ou seja: chega de facilitar refinanciamentos a governos tecnicamente insolventes e politicamente impotentes. Seria um estímulo ao calote, vestido de ''default'', a quem não quer, não pode ou não sabe fazer a lição de casa. Caso do ''déficit zero'' nas contas públicas.
O certo é que a moratória já está em pleno curso, disfarçada de ''reestruturação'' da dívida de US$ 132 bilhões. Dívida contratada a juros de 13% ao ano, já rebaixados para 6% nas tranches internas. E com o próprio FMI recomendando 4% nas penadas externas.
Para variar, o FMI exige um garrote fiscal ainda mais asfixiante para um governo que não conseguiu até aqui atarraxar sequer um ajuste meia-sola. E o que dizer da perda de confiabilidade interna e externa no regime da conversibilidade?
Dolarizar ou desvalorizar? Pelo sim, pelo não, o povo argentino acaba de fazer sua opção pela dolarização (da boca para fora) e pela desvalorização (do bolso para dentro). Como é que é? Simples: na impossibilidade de sacar em ''cash'' nada além de US$ 250 por semana ou US$ 1.000 por mês (haja Papai Noel!), os argentinos abrem contas em banco e trocam cheques (sem limite) por dólares no ''black'' branco de espanto. Meio milhão de novas contas até ontem. E com ágio no câmbio paralelo já acima de 50%.
Autor intelectual do ''currency board'', pau da barraca da conversibilidade legal e da paridade fixa peso/dólar plano assumido em abril de 1991 pelo então ministro Domingo Cavallo , o economista Eduardo Cúria sai da toca acadêmica para defender a ''não mais postergável desdolarização de dívidas, créditos, contratos, salários e preços''. Será? Os argentinos já estão culturalmente dolarizados.
E não foi para menos. O professor Cúria lembra que o plano foi por ele bolado para acabar com a inflação anual de cinco dígitos. Uma vez aprisionada a inflação anual na jaula de um dígito, voltar-se-ia ao regime do câmbio flutuante, escoltado por severo ajuste fiscal. Plano para 10 meses e não para 10 anos. E deu no que deu.





