Joelmir Beting
''O modelo cambial argentino finalmente bateu as botas. Resta saber como será o enterro (e quem será a viúva).''
Luiz Gonzaga Belluzzo, economista
Um dólar platino
Dólar australiano, dólar panamenho, dólar canadense, dólar salvadorenho. E por que não um dólar argentino? Quem se faz a pergunta é nada menos que a Moody's Investor Service, agência americana onisciente, classificadora de riscos de empresas, governos e nações. A Moody's decreta no título da nota oficial: ''Argentina: o Fim da Conversibilidade.''
Entre nós, o professor Luiz Gonzaga Belluzzo, da Unicamp, avisa que o regime do ''currency board'', pau da barraca do programa de conversibilidade e da garantia da paridade fixa peso/dólar, acaba de bater as bombachas, passando desta para a eternidade dos sonhos desfeitos. Com atestado de causa mortis: fadiga do material, com rejeição múltipla. E o epitáfio pertinente: ''Del dicho al hecho hay siempre um gran trecho.''
O professor Affonso Celso Pastore prefere sustentar que o ''padrão-ouro'' dos argentinos ainda não morreu. As máquinas da alquimia cambial (e fiscal) de Domingo Cavallo ainda fazem o coração pulsar e os pulmões respirar. Por enquanto, a morte é só cerebral...
Belluzzo diz que só falta saber como, quando e onde será o enterro do indigitado peso. No velório instalado desde segunda-feira, ouvido ao longe o rufar dos tambores cavalares (patacon, patacon, patacon), as apostas estão lançadas, pela ordem: 1) dolarização formal; 2) desvalorização geral; 3) flutuação gradual; 4) banda emergencial; 5) novo padrão cambial.
A própria Moody's lembra que o regime de conversibilidade não sobrevive fora do ambiente de credibilidade. Como a credibilidade está praticamente zerada por dentro, de dentro para fora e de fora para dentro, o risco país da Moody's despencou desde segunda-feira para o estigma terminal do Caa3, no rodapé da recomendação do salve-se quem puder.
Classificação semelhante partiu do ''rating'' JP Morgan, agora trafegando na ionosfera dos 4.400 pontos (o do Brasil está abaixo de 900). E com o jornal Âmbito Financiero tonitruando um ''conselho saudável'', em letras garrafais, na capa de uma edição esgotada nas bancas em meia hora: ''Dolarize-se!''
Para a Moody's, os argentinos terão de aceitar a cremação do peso. Dolarização, sim; pero, em dólar argentino. Seria a nova moeda do vizinho. Com flutuação ''mixada'' em dólar americano, em euro, em iene, em real... Claro, sem o capacete da conversibilidade em ''cash''. Não haveria ativos suficientes em moeda americana, nos bancos e nos governos, para uma conversão coletiva dos pesos já então micados.





