Joelmir Beting
''A doença das moedas tomou os países a fundo. É a loucura do dólar que está matando o mundo.''
Robert Mundell, em Man and Economics (1972)
Saindo de banda
Reservas cambiais abaixo de US$ 15 bilhões, mesmo com o apagão bancário de 90 dias travando o saque em massa, colocam no pelourinho o estatuto sacrossanto da conversibilidade. E reservas políticas perto de zero, com a oposição assumindo a presidência da Câmara, do Senado e da Suprema Corte, projetam para 2002 um dramático teste de governabilidade.
Só falta o FMI, ouvido o salão oval da casa Branca, cancelar a próxima tranche da blindagem financeira na agonia da Casa Rosada.
Enquanto o ministro Domingo Cavallo ensaia rebaixar ainda mais os juros da dívida de US$ 132 bilhões (contratada a taxas de até 13% e já ''reestruturada'' a 7%), os analistas reabrem a discussão metafísica de uma solução necessariamente de choque para a fadiga do material da alquimia cambial: desvalorizar ou dolarizar?
A desvalorização, com a ruptura por decreto da paridade fixa, da conversibilidade jurada e do ''currency board'' do tipo padrão ouro teria a massa crítica de uma bomba de 10 megatons. Detonaria um ''over-shooting'' cambial de 150% e desencadearia a hiperinflação em peso. Ou seja: o abandono sumário da moeda nacional.
Que tal abandonar a moeda argentina pela moeda americana no atalho da dolarização formal? O desastre seria menor, certo? Nada disso. Primeiro, a dolarização exigiria um lastro físico em dólares que o sistema não dispõe para a cobertura do ativo escritural em banco. Segundo, não haveria estofo político para a perda da soberania nacional - com a Casa Rosada de vergonha repassando a rapadura para a Casa Branca de susto.
Presidente do BNDES (e futuro presidente da Petrobrás), Francisco Gros lembra que a dolarização formal (se aprovada pelos Estados Unidos) colocaria a Argentina na mesma situação de um náufrago em pânico em rio de corredeira: ela se agarraria ao tronco que passa para só depois descobrir-se abraçada a um crocodilo...
Ou será que não? O argentinólogo Rudy Dornbusch, teuto-americano, tira o coelho da cartola: não haveria problema aí pela proa se a dolarização fosse adotada também pelo Brasil ou pelo Mercosul, na linha da futura moeda única da futura Alca. Panacéia cambial endossada pelo canadense Robert Mundell, Prêmio Nobel de Economia. Que faltou explicar por que seu Canadá, a bordo do Nafta, não se deixou atrelar até hoje ao dólar americano. Não faria sentido?
Ademais, não se deve colocar o carro ainda de rodas quadradas da dolarização à frente dos bois da convergência macroecômica dos 34 países das três Américas. Se é que seria viável uma convergência macroecômica restrita ou estanque Brasil/Argentina.





