''Cavallo aplicou um torniquete na hemorragia da coxa. Se o torniquete permanecer lá, vai gangrenar a perna.''


Affonso Celso Pastore, economista


Patacon, patacon, patacon

Gangrenar a perna, no caso argentino, é rebaixar a liquidez da economia e aprofundar a recessão com deflação. A liquidez acaba de ser rebaixada pelo ''apagão bancário'' inaugurado segunda-feira. Uma quadra de depressão coletiva, assim encomendada, colocará na bola sete algo mais que o regime de conversibilidade - também o processo de governabilidade.

Analistas argentinos suspiram entre dois sorrisos amarelos: o bloqueio do estoque de liquidez individual (acima de US$ 250 por semana) tem efeito recessivo mais psicológico do que, digamos assim, biológico. Porque a medida atinge apenas o correntista de banco, um argentino adulto em cada três. O bloqueio deixa com saque livre até 1.000 peso/dólar por mês. Como 83% dos argentinos ganham menos de 1.000 peso/dólar mensais (o salário médio do país é de US$ 605), o ''apagão bancário'' afeta o consumo de apenas 17% da população.

E mais: o consumo lastreado em cheque ou em cartão de débito e/ou de crédito permanece sem qualquer restrição. Sim, só 35% dos argentinos brandem talões de cheques e nada além de 10% exibem cartões de crédito. De qualquer forma, correntista com teto no dinheiro vivo passa a movimentar-se com cheque e/ou cartão.

E o patacon? Ah! A moeda já emitida por 11 províncias acaba de virar a bola da vez no mercado aberto. Não há limites para transações comerciais em patacones. O governo da província de Buenos Aires revelou, ontem, que os servidores toparam receber os vencimentos de novembro em 100% de patacones. Eles aceitavam, no máximo, 60% do contra-cheque nessa ''tercera moneda''.

Resumo da ópera-tango: o bloqueio da liquidez bancária cortou pela raiz uma ''corrida aos bancos'' e não deve produzir, até prova em contrário, recessão ainda maior. O problema, como diz Affonso Celso Pastore, na edição de ontem do jornal Valor, está na manutenção desse torniquete monetário na artéria furada da coxa esquerda da economia já estagnada: a retomada do crescimento fica adiada para o Dia de São Nunca.

Sem mistério. Todos os cinco pacotes cavalares do ano vestem a camisa da recessão purgativa. Caso, em especial, da bravata política do déficit zero nas contas públicas, com direito a cortes de empregos, de salários, de aposentadorias e de pensões. O comércio lojista ensaia fechar 2001 com queda de 17% sobre o marca-passo de 2000. Ou com corte de até 50% no fluxo turístico para o Brasil.

Só faltava a seleção de futebol, a favorita, cair por sorteio no grupo mais forte da Copa 2002 (com o Brasil, o arqui-rival, no mesmo sorteio, pegando o grupo mais fraco). Agora, não falta mais nada.

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