''O desafio do Brasil está em exportar ou sofrer. O da Argentina está em dolarizar ou morrer.''


Marco Antonio Gonçalves, economista


O apagão bancário

Quando o ministro Domingo Cavallo admitiu, publicamente, há duas semanas, que a Argentina estava com ''um pé no abismo'', os argentinos romperam relações diplomáticas com o sistema da conversibilidade em lei. O regime da paridade fixa, atrelado à conversibilidade sacramentada, já havia jogado a toalha na adoção do câmbio duplo do comércio exterior, na emissão da não-moeda com função de terceira moeda (os patacones) e na cobrança informal de ágio/deságio nas transações comerciais cacifadas em peso.

Na semana passada, nos primeiros movimentos de ''corrida aos bancos'', pela primeira vez em dez anos e meio de câmbio mumificado e economia idem, os argentinos puxaram de vez o tapete da sobrevida do peso esfalfado de guerra. Então, para cortar o pavio de uma ruptura bancária iminente, Domingo Cavallo teve de apelar, no fim de semana, para um remendão afegão: bloquear nos bancos o estoque de liquidez dos correntistas, semicongelando depósitos por 90 dias (será?) para saques acima de US$ 250 por semana.

Clonagem platina do Plano Collor? Nada disso, explicou o ministro pela televisão dominical: a poupança coletiva poderá circular livremente, desde que em cheque ou em cartão. Ocorre que metade dos argentinos adultos não tem talão de cheques e dos que têm conta em banco só 10% fazem uso de cartões de crédito.

Resultado: com pinta de bloqueio também do fluxo e não apenas do estoque de liquidez da economia estagnada, o novo pacotaço do vizinho projeta para os 36 milhões de argentinos o Natal mais jururu, sem peru, de todos os tempos. Os mercados resvalarão da estagnação para a recessão e da recessão para a depressão. Incluído, desde ontem, o cancelamento de reservas para mais um verão tropical no Brasil cor de anil.

Quer dizer: o dólar e/ou o peso nunca teve tamanho poder de compra cá por nossas bandas e plagas como neste fim de ano. Para turistas e compristas argentinos, o Brasil virou a pechincha do mundo. O problema é que, do Natal ao carnaval, não haverá ''plata'' em bolso para rasgos de consumo hedonista dentro e fora da Argentina.

Domingo Cavallo não está ligado no turismo para fora nem no consumo ou no emprego para dentro. O objetivo desse ''apagão bancário'' é o de evitar o saque coletivo, que já estava no torque de US$ 1 bilhão por dia. Uma corrida aos bancos seria o começo do fim da quebra do sistema financeiro sem lastro.

Ao apelar para esse ''último recurso'', Domingo Cavallo seguiu ao pé da letra o ensinamento dos generais romanos em Cartago: em situação de emergência suprema, a saída mais ousada é certamente a mais segura. Pois é.

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