Joelmir Beting
Angra 3 no Dia D
A retomada das obras da Usina Nuclear Angra 3 pode ganhar o sinal verde do Conselho Nacional de Política Energética (CNPE) em sua reunião de hoje, em Brasília. Dentro do governo, a emergência energética não tem conseguido falar mais alto que a salvaguarda ambiental e a contingência financeira.
Enquanto o Ministério de Minas e Energia recomenda a conclusão de Angra 3 (trabalho para mais quatro anos), o Ministério do Meio Ambiente propõe, antes da retomada, a reavaliação do passivo ambiental da futura usina e a revisão do plano de emergência de Angra dos Reis para a eventualidade de algum acidente na vida útil do complexo nuclear já instalado.
De nariz torcido para o projeto estão os Ministérios da Fazenda e do Planejamento. A conclusão da usina exigiria investimentos adicionais de quase US$ 1,8 bilhão, a dólar médio de 2000 (R$ 1,81). Já foram gastos US$ 760 milhões em equipamentos encomendados desde 1975. A manutenção adequada desse almoxarifado sensível já consumiu outros US$ 440 milhões e vai continuar exigindo gastos de mais US$ 22 milhões a cada mês.
Pela retomada de Angra 3 votam os Ministérios do Desenvolvimento e da Ciência e Tecnologia. Desde maio, claro, tempestivamente escoltados pelo Ministério do Apagão. Como o CNPE é integrado por nove membros, dá-se como caçapa cantada, na reunião de hoje, o relançamento de Angra 3 por 6 votos contra 3.
Uma votação que praticamente coincide com o que pensa a população da cidade do Rio de Janeiro sobre energia nuclear e sobre Angra 3. Pesquisa do Ibope, realizada no mês passado, por encomenda da Associação Brasileira de Energia Nuclear (Aben), revela que 63% dos entrevistados são a favor, 26% contra e 11% nem a favor nem contra.
Presidente da entidade, Maria Helena Sampa rebate a tese de que os investimentos reclamados pela conclusão de Angra 3 teriam melhor e mais rápido retorno se baldeados para termoelétricas a gás natural ou a bagaço de cana. Ela diz que a matriz energética brasileira vai ter de correr com todos os cavalos no mesmo páreo do apagão já contratado. Segundo ela, em energia, agora pela bola sete, fontes primárias diversas não são excludentes ou alternativas; elas são complementares ou aditivas.
O secretário de Energia do Rio de Janeiro, Wagner Victer, prefere lembrar que Angra 3 conta com o endosso da maioria dos congressistas, em manifesto pluripartidário de agosto de 2000.





