Empresas e famílias já deram sua contribuição. Burocratas e políticos, ainda não. Sob a chantagem emocional do apagão punitivo, os brasileiros conseguiram baixar o consumo nacional de energia elétrica em até 17%. Algo parecido com a oferta média de Itaipu.

A maioria das famílias e das empresas cometeu a façanha pela simples redução do desperdício e da ineficiência nos usos e nos abusos da energia. Desperdício e ineficiência gerados pela nossa secular ''cultura da abundância''. A energia elétrica era um recurso barato e seguro. Nascia nas tomadas da sala ou do quarto, tal como a água tratada ainda nasce nas torneiras da cozinha ou do banheiro.

O problema é que nove em cada dez analistas desavisados não deram bola às gorduras do consumo, como se os brasileiros fossem suíços, alemães ou japoneses sem condição de poupar um único kW/h adicional a tudo o que eles lá fora estão conservando ou racionalizando desde o primeiro ''oil shock'' da Opep, em 1973/77.

Por obra e desgraça desse blecaute mental, os mesmos cenaristas profetizaram, em maio, que o Brasil sem força e sem luz não teria como escapulir do desastre econômico e do caos social, no mais tardar, em outubro. Com recessão patogênica e inflação paranóica.

Bem, previsões pessimistas sempre foram levadas a sério. De tal sorte ou azar, que o dólar, já então no aclive, partiu para o pico de R$ 2,83 e a Selic no alto não mais baixou a crista de 19%. Sem contar, claro, a queda do PIB gregoriano de quase 5% para menos de 2%. O medo da crise (e não a crise) provoca a crise.

Para variar, o que não deu nem vai dar para contabilizar, na esteira do anunciado fim do mundo que não houve (algo parecido se deu em escala global com os horrores de 11 de setembro), é todo o clássico rosário de negócios cancelados, contratos transferidos, projetos engavetados, investimentos reprimidos, orçamentos mutilados, empregos perdidos...

O certo é que sobra energia na oferta de pico ainda possível. O desperdício era maior que o imaginado. A ineficiência, maior que a estimada. Houve, sim, severa privação para certas empresas e famílias, de consumo então já contido, atingidas pelo racionamento linear sem aviso prévio. Elas são, agora, as maiores beneficiárias da anunciada redução dos tetos mensais.

E os burocratas e os políticos? Ah! Eles continuam cavando as crateras do apagão. Simplesmente porque não entendem e não se entendem nos tratos de um modelo energético que, ainda hoje, faz da falta de regras um estrago bem maior que o da falta de chuvas.

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