Joelmir Beting
''Dizem que jamais alguém conseguirá adivinhar o futuro. Mas é bom fazer previsões para não ser banido por ele.''
Peter Bernstein, consultor americano
O garrote é outro
Com o recongelamento da base dos juros em 19% ao ano, a taxa real da Selic, deflacionada pelo IGPM, ensaia virar o ano abaixo de 9%. Ainda desconfortável, mas suportável. A taxa básica tem a ver com o refinanciamento automático da dívida pública e com a felicidade (ou não) de seus respectivos credores ou rentistas.
Para a atividade econômica em geral, o que importa é o calibre dos juros nos créditos bancários para investimento, produção, giro e consumo. Ocorre que os juros na ponta do setor produtivo continuam abusivamente distanciados dos juros na base da dívida pública. Segundo fontes cruzadas do Bacen/Serasa/Anefac/Procon, o tranco médio vai de 47% para o mutuário pessoa jurídica a 153% para o mutuário pessoa física. Com ou sem mexida na Selic.
Pois são os juros da ponta e não os juros da base que determinam direta ou indiretamente os fluxos e os níveis de consumo, produção, emprego, salário, poupança, inflação. O problema é que nove em cada dez analistas se contentam em discutir os ''impactos'' da Selic na variação futura do IPCA e do PIB, com sobras para o câmbio, a dívida interna e o déficit externo.
Prefiro desviar minha chutometria para os desvãos do crédito bancário mais curto e mais caro do mundo. É no pescoço das humildes duplicatas em bancos e das prestações do crediário em lojas umas e outras cravadas pelos caninos draculianos do ''spread'' bancário e da cunha fiscal que se dá o jogo bruto da chamada ''austeridade monetária'' de caráter criogênico ou anoréxico.
Ou seja: dá para baixar a Selic em pelo menos 3 pontos porcentuais sem produzir uma farra de crédito (e de demanda) pelas fímbrias da economia real. O verdadeiro garrote monetário está nos bancos e nas lojas. Pois foi o afrouxamento parcial desse garrote, desde setembro de 1999, que guinchou o PIB então estagnado para uma escalada supimpa de 4,46% na travessia de 2000. E com o IPCA, mesmo assim, recuando da faixa de 9% para a faixa de 6%.
E tome nova verborragia acadêmica em torno da manutenção da Selic em 19%. Sim, é para não deixar o IPCA 2002 escapulir da meta inflacionária de 3,5%, já revisada para 3,9%. Mas que a bola de cristal do mercado prefere espichar para 5,1%. Com o lembrete de Heron do Carmo, da Fipe/USP: se o governo insistir na promessa de corrigir os ''preços administrados'' em 8% no ano que vem, sem abrir mão daquele IPCA comprometido com 3,9%, a massa dos preços livres de mercado terá de se contentar com aumento anual médio de apenas 2,2%. Dá para acreditar?





