Vizinho na bola sete

Estrebuchada na UTI do FMI, a Argentina entra em contagem regressiva para o colapso nacional. O famigerado risco país acaba de superar a barreira afegã de 3.000 pontos, distanciando-se ainda mais do risco País do Brasil que voltou a trafegar abaixo de 1.000 pontos.

Esse descolamento do Brasil no aclive em relação à Argentina no declive informa por e-mail ao capital volátil sem bandeira que Buenos Aires não é a capital brasileira. Isso aumenta a aflição dos aflitos argentinos: a) migração de investidores em títulos em baixa da dívida argentina para títulos em alta da dívida brasileira; b) migração de consumidores de produtos argentinos para similares brasileiros; c) migração de empresas e de profissionais argentinos para o Brasil...

O ministro Domingo Cavallo, salvador da pátria, suspira fundo e desiste de dar murro em ponta de faca. Ele já admite que o plano fiscal do déficit zero a ferro e fogo se tornou técnica e politicamente intragável. Ou seja: um esforço inútil sobre ser desagradável. Governadores da oposição peronista, em maioria, teimam em não endossar o pacto da privação coletiva.

Na desforra, Domingo Cavallo avisa que vai apresentar na noite desta quinta-feira, pela televisão, a sinopse do Orçamento-Geral para 2002. Com cortes de serra no osso, até por falta de gordura e de carne nas contas públicas em geral. E com o FMI fungando no cangote de um acordo de metas não cumprido, negando-se a antecipar US$ 1,3 bilhão na semana que vem para a cobertura do resgate de US$ 1,6 bilhão em títulos que vencem no dia 29.

A menos, claro, que a Argentina formalize ainda hoje um pedido de perdão (''waiver'') pelo não cumprimento das metas acordadas. O problema é que o orgulho nacional não admite mais essa humilhação. A Casa Rosada ainda acredita numa intercessão favorável da Casa Branca junto ao comando teleguiado do FMI.

Ocorre que o FMI não está a fim de perdoar mais coisa alguma. Até porque já concedeu quatro certificados de ''waiver'', desde janeiro, na esteira de uma transfusão já consumada de US$ 13 bilhões e uma blindagem que poderia chegar a US$ 39 bilhões até 2003. Pelo sim, pelo não o fundo promete nova missão no domingo para avaliar aquela que seria a quinta revisão do acordo em menos de um ano.

É bom lembrar que o FMI, refestelado em Washington, onde a águia bebe água, é um banqueiro que tem um olho de vidro, o direito. Olho de vidro que emite mais calor humano que o olho esquerdo, o natural.

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