Joelmir Beting
''Boa notícia: a inflação está em queda. Má notícia: a inflação está em queda.''
José Maria de Jesus, homo economicus parvus
Recessão é salvação?
O governo não ousa baixar os juros na base porque a inflação de outubro estourou as previsões realistas do próprio Banco Central. A escola monetarista, importada de Chicago, ainda decreta aqui para a Botocúndia: baixar juros é soltar as feras da inflação de demanda. Cujo vírus não morre e é do tamanho de uma anta.
A realidade econômica já mudou, mas a convicção acadêmica da maioria dos economistas ainda não. A confraria sustenta que só o garrote monetário, o do crédito curto e caro, tem força para espancar o consumo, encalhar a produção e desarmar a carestia nossa de cada dia. Recessão é a salvação!
Essa concepção teórica, lá dos anos 50, não admite o advento da globalização darwiniana, com novos inibidores da remarcação de preços: a) choques encavalados de competição nos mercados; b) choques continuados de modernização nas empresas. Como nunca antes na atribulada carreira do capitalismo, a modernização rebaixa ou absorve custos e a competição congela ou rebaixa preços.
No caso brasileiro, esse movimento telúrico ganhou o reforço da desindexação voluntária da economia mais indexada do mundo. Essa façanha do plano Real explica uma quadra de estabilidade monetária que já dura exatamente 100 meses corridos. Testada por choques cambiais e elétricos, essa (quase) estabilidade do poder de compra da moeda no mercado interno devolveu ao consumidor brasileiro a noção do valor relativo das coisas e a memória seletiva dos preços.
Resultado: acabou a farra do repasse de custos para preços, com casca e tudo. Instalou-se em cada cadeia produtiva a síndrome da ''ruptura do repasse''. Não é mais o custo que bitola o preço (para o alto); é o preço que calibra o custo (para baixo). Com estreitamento progressivo das margens de lucro. Daí o desgarramento continuado da variação de preços no atacado ou na produção (IPA) versus variação de preços no varejo ou no consumo (IPC).
Só falta avisar os formuladores da política monetária anoréxica. O cativeiro da inflação em quase todo o mundo (até mesmo em mercados sob forte pressão de demanda) pouco ou nada tem a ver com a incensada austeridade monetária dos economistas. Nem sequer com a desgastante neutralidade fiscal dos burocratas. O sumiço da ''doença do século'' tem muito ou tudo a ver com a atuação bucaneira de pesquisadores, consultores, executivos, fornecedores, parceiros, distribuidores, empregados, consumidores...
Em resumo: o Copom bem que poderia reduzir a Selic ao cair da noite de hoje. Afinal, a bolha cambial já murchou, o mundo ainda não acabou, a dívida pública exige refresco tempestivo e os juros nos terminais do consumo, onde o IPCA deita e rola, não arredam pé da ''banda draculiana'' de 75% a 150% ao ano.





