''Na diplomacia econômica, o sim é talvez, o talvez é não e o não não é diplomacia.''


John Pierpont Morgan (1837-1913), banqueiro americano


Rodada em falso

Para o professor Joseph Stiglitz, Prêmio Nobel de Economia de 2001, a nova rodada de negociações do estatuto global do comércio de produtos, serviços e patentes, neste fim de semana, em Doha, no Catar, não tem massa crítica para desviar a economia mundial da atual marcha batida para a recessão. Mas tem munição no tambor para melhorar (ou piorar) as condições de vida da nova geração.

No curto prazo, a conferência ministerial de três dias (por que só três dias e não 10 ou 20?) nada pode fazer para reverter a sinistrose que se instalou, desde 11 de setembro, na rabeira da desaceleração econômica global desde outubro do ano passado. Esse quarto encontro dos 142 países que integram a Organização Mundial do Comércio (OMC), instalada em 1994, deve ser entendido como tiro de partida e não como fita de chegada para a chamada Rodada do Milênio - que deve durar cinco anos, no mínimo.

Entenda-se por Rodada do Milênio toda uma fieira de acordos e desacordos multilaterais para o reordenamento, necessariamente melindroso, do mercado mundial pactuado que não pode ser inteiramente aberto nem deve ser completamente murado. A negociação dessa Torre de Babel é politicamente abrasiva, sobre ser tecnicamente complexa.

Os 29 países centrais, membros da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), donos de dois terços do PIB mundial e de três quartos do comércio global, fazem beicinho para a agenda de Doha. Tal como deixaram esvaziar a reunião anterior, em Seattle, novembro de 1999, a pretexto da baderna de rua dos profissionais da antiglobalização quixotesca.

O capitalismo opulento não pretende fazer concessão ao capitalismo emergente nem jogar qualquer bóia ao quarto-mundismo submergente. A exposição de motivos dos países ricos é emprestada do nosso filósofo ludopédio Neném Prancha: ''Não se deve mexer em time que está ganhando.''

Seguinte: relatório da OMC, datado de agosto, revela que o valor exportado pelo bloco da OCDE, a dólar médio de 2000, cresceu 44% entre janeiro de 1994 (estréia da própria OMC) e dezembro de 2000. No mesmo período, os embarques do restante do mundo expandiram-se em apenas 19%. Incluída, nesse cálculo, a desvalorização de 27% dos produtos primários a partir de 1997.

Desvalorização patogênica adensada pela massa de subsídios agrícolas que adubam a poderosa economia rural de americanos, europeus e japoneses. No conjunto da OCDE, tais subsídios totalizam US$ 1 bilhão por dia. Dá para tomar uma pinga antes?

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