''Se o Banco Central deixar o dólar em queda livre, os especuladores vão acabar cuspindo sangue.''


Luiz Sthulberger, consultor financeiro


Desova cantada


Se a taxa efetiva real de câmbio transita no ano abaixo de R$2,40, está na cara que ela não se sustenta acima de R$ 2,70 nem tem munição para furar a barreira de R$ 3,00 na travessia de 2002. Para o Orçamento Geral da União, ainda em gestação no ventre do Congresso, o dólar estará valendo exatamente R$ 2,40 lá em dezembro do ano que vem. Para um IPCA de 3,5%, lógico.

Executivos financeiros de bancos e de fundos, com poder de previsão auto-realizável no mercado cambial, preferem apostar em dólar abaixo de R$ 2,60 no próximo Natal e em torno de R$ 2,70 em dezembro de 2002. Claro, se os economistas do PT não aprontarem das suas na quarta vitória consecutiva de Lula antes do horário eleitoral gratuito de agosto e setembro.

O estouro da bolha do ''hedging'' (compras coletivas de dólares escassos para proteção cambial de ativos e passivos) era caçapa cantada, desde julho, para novembro e dezembro. Onde? Nesta coluna. Aqui foi escrito e repetido que o ''apagão'' (uso racional de energia) era uma solução e não uma tragédia. Percepção que as empresas só anotariam no caderninho a partir de outubro.

E mais: a coluna sustentou que não haveria repasse de custos para preços no choque elétrico nem na bolha cambial. Daria para fechar o ano de tantas turbulências lá fora e de tantas atribulações aqui dentro com IPCA abaixo de 7%. Incluído o transe global do terror pelo terror de 11 de setembro sem aviso prévio, of course.

Comenta-se, desde segunda-feira, que a reversão do câmbio (ainda gasosa) resultaria de um ''descolamento'' da condição do Brasil da situação na Argentina. Pois eu não quero saber por que o Brasil estaria se descolando da Argentina. Gostaria de saber por que o tal de ''mercado'' andou fazendo a colagem do Brasil à Argentina.

Pombas! Esse tal de contágio global ''a nível de emergentes'', ainda que vizinhos de leite, nasceu e morreu nas crises da Ásia e da Rússia, em 1997/1998. Morreu para o capital produtivo das múltis, ainda que não para o capital volátil das bolsas. Que se dane o capital volátil, de resto tão execrado. Um excedente financeiro manipulado por bancos e fundos, em nome de especuladores vestidos de investidores.

Pois a reação desses profissionais do sobressalto aos horrores do terrorismo em pleno coração de Wall Street não tem sido pior que a das ''crises globais'' que eles próprios fabricaram, este ano, nos déficits da Turquia ou nos impasses da Argentina. Ou como diria José Maria de Jesus, picando fumo de corda: ''Quem não tem problemas, inventa problemas, uai!''

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