''Fazer política é a refinada arte de criar problemas, cujas soluções mantenham o povo em suspense.''


Ezra Pound (1885-1972), poeta americano


Um xerife molóide


Até para dizer que respira e funciona, a Agência Internacional de Energia Atômica (Aiea) reuniu em sua sede, em Viena, neste último fim de semana, os maiores peritos do mundo em segurança nuclear. Na agenda: o terrorismo do ramo.
Exposição de motivos para a reunião de emergência, assinada pelo diretor-geral da Aiea, Mohamed el-Baradei: ''Um ataque nuclear terrorista tornou-se muito mais verossímil do que se imaginava antes de 11 de setembro. Precisamos ficar alertas em três frentes: a) uso de mísseis ou de caças no lançamento de bombas atômicas sobre cidades populosas; b) ataques contra usinas nucleares e reatores de pesquisas; c) contaminação radioativa de instalações, propriedades, condomínios e aglomerados urbanos.''
Só. A agência da ONU deve saber do que está falando. Ela foi fundada em 1957 para patrulhar a difusão da tecnologia dos reatores, de seus rejeitos e de seus derivados em todo o mundo. Ou melhor: nos países signatários do Tratado de Não-Proliferação de Armas Nucleares (TNP). Um arranjo cínico que até hoje proíbe a proliferação nos países que não têm o que proliferar e nada faz para impedir a proliferação dos que mais proliferam o que é proibido proliferar.
A própria Aiea nada fez e nada fará para coibir programas clandestinos de caráter bélico de uma penca de países já devidamente ''nuclearizados''. Massa de manobra para o desvio de equipamentos, materiais e armamentos nucleares para movimentos subversivos e/ou terroristas de qualquer bandeira. Incluída a tirania política milenar fantasiada de fundamentalismo religioso, irmão siamês do fundamentalismo ideológico. O circo está armado. Cientistas nucleares do Paquistão foram engaiolados na semana passada. Eles conduziram os testes com bombas atômicas em 1998 e devem comprovar que os trabalhos não estão ''infiltrados'' por agentes do Taleban ou da Al-Qaeda de Bin Laden. O governo paquistanês já está ilhado pelo Taleban e dispõe de duas dúzias de bombas atômicas em seu arsenal apontado para a Índia (esta, com 52 bombas embicadas para o Paquistão, com sobras para a China).
Iraque, Irã, Israel, Argélia e Coréia do Norte igualmente proliferam o que é proibido proliferar. Também a Argentina? Fácil. Os Estados membros determinam o dia, a hora e o local da inspeção periódica dos agentes da Aiea. Burocrática e paquidérmica, a agência simplesmente controla as atividades nucleares de governos que não se deixam controlar. Nas ex-repúblicas soviéticas, pior: não se deixam controlar até porque não mais se controlam.

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