Joelmir Beting
''As águas são quase infindas. E em tal maneira a terra é graciosa que, querendo-a aproveitar, dar-se-á nela tudo, por bem das águas que tem.''
Pero Vaz de Caminha, carta de 1º de maio de 1500
Enxugando gelo
Pela primeira vez em 501 anos de atribulada carreira, a economia rural brasileira empina-se para uma colheita anual de grãos de 100 milhões de toneladas. Previsão oficial para a safra 2001/2002, já depositada na terra prenhe do Sudeste e do Centro-Oeste. A colheita de 2000/2001 está fechando em 98 milhões de toneladas, 18% maior que a do ano-safra anterior.
Igualmente relevante: o crescimento continuado da produção brasileira, desde 1995, tem ocorrido menos por expansão da área de cultivo e mais por aumento da produção por hectare ocupado. Ou seja: por ganhos de produtividade em todas as lavouras, malgrado o contrapé da queda de renda real dos produtores.
Esse paradoxo de perdas de rentabilidade com ganhos de produtividade tem a ver com a desvalorização de quase todas as ''commodities'' agrícolas, em termos reais, no Brasil e no mundo. No mercado global, a dólar médio de setembro, os produtos agrícolas estão 31% abaixo das cotações médias de outubro de 1997 (EIU).
Um achatamento de renda agravado, no caso brasileiro, pelas trombadas de nossas exportações com o rolo compressor das lavouras fortemente subsidiadas e protegidas nos dois lados do Atlântico Norte. Protecionismo discriminatório e abusivo do bloco da opulência capitalista, cacarejado por José Bové e endossado pelo presidente de honra do PT.
Ou como escreve Marcos Sawaya Jank, professor da Esalq/USP: ''Os subsídios que estimulam e financiam os encalhes dos queijos do sr. Bové são sacados de consumidores e contribuintes franceses e têm impacto negativo sobre países emergentes competitivos, como o Brasil. A prática gera excedentes e os excedentes achatam preços no mundo todo.''
Aos economistas do PT falta examinar os relatórios da OCDE. Os subsídios por produtor, no ano fiscal 2000, somaram US$ 25.190 no Japão, US$ 20.803 nos Estados Unidos e US$ 16.028 na União Européia. Ou ainda: no triênio 1998/2000, tais subsídios alcançaram 71% do valor da produção agropecuária na Suíça, 66% na Coréia, 63% no Japão, 41% na União Européia e 23% nos Estados Unidos.
No caso americano, 50% dos ''incentivos'' foram faturados por apenas 7% dos produtores os maiores, com poder de pressão no Congresso, na Casa Branca e na poderosa cadeia do ''agribusiness'' ianque. Com seus negócios diretos e indiretos de US$ 3,1 trilhões no ano passado. Algo do tamanho de cinco PIBs do Brasil.





