As rodovias brasileiras são deficientes e insuficientes. A malha total pavimentada, menor que a da Argentina, precisa de urgente restauração e/ou reconstrução. Em estado precário, no limiar do colapso, temos nada menos de 68,9% das rodovias federais e estaduais. Essa Buracobrás totaliza 45.294 quilômetros de padrão casca de ovo. Não por outra, estradas chamadas de horrordovias pelos destemidos carreteiros de dois terços da carga nacional bruta.
A pesquisa é de julho, atualizada todo ano pela Confederação Nacional do Transporte (CNT), cujo presidente, Clésio Andrade, não deixa por menos: ''O verdadeiro gargalo estrutural da economia e da sociedade não é o da energia, já devidamente 'chocado'. É o do sistema intermodal de transportes, com suas carências dramáticas em rodovias, ferrovias, hidrovias, portos e aeroportos.''
E o que dizer da progressiva saturação do tráfego urbano, mesmo com baixos índices de motorização dos brasileiros, ainda pela metade dos índices argentinos? Sem condução própria, a população urbana continua servida por um transporte coletivo superlotado, sucateado, atrasado e, não raro, assaltado. Nas áreas metropolitanas, infestadas de perueiros, o modal ferroviário suburbano, dito transporte de massa, ainda carrega gente como se fosse gado.
Eis a questão: o Brasil disfarça certas demandas reprimidas (de transportes, moradias, escolas, hospitais e presídios) na base da ''insuficiência orçamentária'' do tipo Pilatos. Não se questiona a escala das prioridades, a qualidade dos projetos, o desperdício dos recursos (escassos) e os desvios e os desvãos da moralidade nos tratos da coisa pública, ainda mais coisa que pública.
Ou como escreve Peter Drucker, em The Unseen Revolution (1976): ''Culpa-se a cultura de toda uma nação pela deslealdade na condução de políticas públicas e na operação de negócios privados. Trata-se de uma boa desculpa para não enfrentar tais problemas.''
Voltando ao asfalto de porcelana, Clésio Andrade lembra que a precariedade do sistema rodoviário, agravada pela baixa complementaridade com outros modais, continua encarecendo os custos operacionais da frota brasileira em praticamente um terço. Algo parecido, em um ano, com o triplo do que se gastaria na adequada manutenção preventiva de toda a malha pavimentada, cuja restauração/reconstrução, em certos casos, sai hoje mais cara que a da implantação de novos traçados em bases modernas.

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