Joelmir Beting
Para sentir a pulsação da economia, quase em tempo real, o Banco Central realiza, semanalmente, uma sondagem da bola de cristal de 70 instituições financeiras e empresas de consultoria. Sem entrar no mérito da seleção dessas fontes, penso que seria adequado incluir na prospecção semanal igualmente empresas da indústria e do comércio, situadas no ''front'' da economia real.
Analistas do sistema financeiro, em especial, trabalham em regime de sobressalto permanente. Eles se obrigam a processar um dilúvio de informações a cada minuto e não mais a cada dia. E, até para não cometer equívocos de avaliação, premidos pela urgência e não pela perfeição, eles tendem a pintar cenários mais feios que a paisagem que os rodeia.
De resto, condição humana natural. Projeções pessimistas são levadas a sério. Elas se auto-realizam. E não menos importante: o piorômetro é mais seguro. A clientela pode até não ganhar com ele, mas dificilmente quebra a respectiva cara. Não raro, cara de milhões de reais. Ou de dólares. Tanto assim que o tal de ''mercado'' se deixa levar pelo efeito manada de caráter defensivo. Quando todos erram juntos, ninguém perde o emprego.
Mas vamos lá. Na sondagem da semana, as 70 fontes jogam com ligeira deterioração dos principais indicadores. Pela mediana do Bacen, o ''mercado'' avisa que o dólar vai fechar o ano a R$ 2,80. E deve continuar por essa bitola na travessia do ano eleitoral de 2002, cravando R$ 2,90 lá na ponta de dezembro. Tradução: para os fazedores do câmbio, em regime de flutuação, o bicho mudou mesmo de patamar, perpetuando elevação nominal de 47% no ano.
Até por causa disso, o ''mercado'' sustenta que o PIB deve cair de 4,5%, em 2000, para 1,7% em 2001 e para 2,1% em 2002 (o Banco Mundial aposta em PIB de 3,5%). Ainda sem recessão. E a inflação? Pela métrica do IPCA, ela ensaia fechar o ano raspando o travessão de 6,7%, acima da meta-teto de 6%. Para o comércio exterior, o cenário carrega pinceladas de azul. O superávit do tipo leite de pedra pode encaixar US$ 1,1 bilhão em 2001 e US$ 4,1 bilhões em 2002.
Folga garantida menos por aumento das exportações e mais por redução e/ou substituição de importações. O mercado mundial, que vinha trotando pela média de 8,7% ao ano (com pico de 12,4% em 2000), terá de se contentar, este ano, com expansão de apenas 2%.
A estimativa é da Organização Mundial do Comércio (OMC). Que não arrisca nenhum prognóstico sobre as trocas globais em 2002. Efeito Bin Laden queimou os faróis de neblina da OMC. Não por acaso, as torres gêmeas de Manhattan, que ainda ardem o fogo dos infernos aqui na Terra, chamavam-se Centro Mundial de Comércio.





