Joelmir Beting
''O jornalismo é a técnica de separar o joio do trigo e publicar o joio.'' Walter Lippman (1889-1974), jornalista americano
Do apagão mental
Manchete de 8 colunas da Folha Dinheiro (17/10/2001): ''Falta de más notícias alivia preço do dólar.'' Só faltava essa: falta de más notícias. Pois agora não falta mais nada. A manchete do jornal faz sentido no ''front'' da mídia coisa-preta, que se diz em oposição à mídia chapa-branca. Caso da recepção alarmista que editores alarmados dispensaram, em maio e junho, ao advento do apagão-trapalhão, caçapa cantada desde 1995. Capa da revista IstoÉ/Dinheiro (30/5/2001) não deixou por menos: ''O Brasil Arrasado.'' Com o empresário Antonio Ermírio de Moraes na foto de capa: ''Eu não consigo mais dormir. Perdi dez anos de trabalho.''
Ainda sobre o apagão do ''Fomos pegos de surpresa'' (FHC), a revista Veja (16/5/2001) igualmente não perdeu a viagem: ''O Brasil tem encontro marcado com o caos. Um blecaute vai apagar as cidades brasileiras por até cinco horas - todos os dias, durante seis meses, no mínimo.'' Com o grifo: ''Os apagões podem gerar uma crise social, política e econômica como só os países em guerra enfrentam.''
Não era para menos. Sondagem da Confederação Nacional da Indústria (CNI), na estréia do racionamento, em junho, deu à luz um cenário realmente sinistro: 1) Setenta e um por cento das fábricas avisaram que teriam de reduzir a produção para cumprir metas; 2) Sessenta e três por cento declararam a intenção de apelar para demissões do pessoal; 3) Quarenta e três por cento juraram optar também pela suspensão de novos investimentos.
Em revoada, economistas e consultores projetaram a rebrota da ''estagflation'' do Brasil do cruzeiro, com direito a uma forte recarga purgativa dos juros, a uma escalada ainda maior do câmbio (acima de R$ 3,00), a uma debandada em massa do capital estrangeiro e a um Lula-lá de no mínimo 60% nas pesquisas eleitorais de agosto...
Sem mistério. Projetaram para o Brasil distraído e relapso um corte linear de 20% na oferta de energia para uma demanda de padrão japonês ou alemão. Ou seja: demanda sem gordura, porque turbinada por um dramático programa voluntário de conservação de energia - desde o primeiro choque do petróleo nos anos 70. Não havia desperdício nem ineficiência nos usos da eletricidade verde-amarela de espanto. Certo?
Well, estamos a sete dias de novembro e o Ministério do Apagão antecipa para dezembro a redução do racionamento (já flexibilizado) de 20% para 5%. A terrível recessão do apagão contentou-se, desde junho, com dois mercados: o das próprias distribuidoras de energia (queda real de receita de 16%) e o das agências de publicidade e respectivos parceiros de veiculação, com perdas de 13%.





