Joelmir Beting
''O organismo econômico é um animal social depressivo por natureza. Se para ele o otimismo nada melhora, o pessimismo tudo piora.''
Juliano Bastide, sociólogoRecessão ou não ?
No final das contas e dos contos, a economia mundial já está em recessão ou ainda não? E a locomotiva americana, com seu produto anual de US$ 9,4 trilhões? Ela se encontra em marcha à ré no meio da pista ou simplesmente saiu para acostamento do crescimento zero, vulgo estagnação?
A revista inglesa The Economist mostra que o apagão mental em torno da abrasiva matéria começa pelos próprios editores. Na edição desta semana, enquanto a matéria de capa sustenta que a recessão americana já começou, colocando a economia mundial de joelhos, o instituto de pesquisas da própria, o Economist Intelligence Unit (EIU), avisa que o PIB global vai de 4,7% em 2000 para 2,2% em 2001 e 2,9% em 2002. Desaceleração com reaceleração, sem passar pela estagnação e muito menos pela recessão.
Ou será que não? O Conference Board, similar americano do EIU britânico, avisa aos navegantes que a águia estressada acaba de cravar as garras na areia do crescimento zero. Do qual só levantaria vôo no terceiro trimestre do ano que vem para uma retomada de até 3,5% ao ano em 2003. Algo parecido com uma recessão branda, nada além de três trimestres corridos.
Os principais indicadores de desempenho ainda são controversos em cenarização. Exemplo: queda acumulada de 5,8% nos últimos 12 meses deixou o setor industrial (23% do PIB) pela cota de 74% da capacidade instalada, a mais baixa desde a recessão de 1990/91. Ocorre que os estoques de fábricas, depósitos e lojas estão igualmente no seu nível mínimo - indicando reposição no gatilho ao primeiro sinal de reversão de expectativas aí pela proa.
E mais: a massa de lucros privados, em quatro trimestres, trafega pela bitola de 8,1% do PIB, contra 12,5% no período anterior. Pela média móvel de quatro trimestres, métrica favorita dos analistas americanos, trata-se da menor rentabilidade coletiva, em termos porcentuais, desde 1952. No rodapé do sistema, 32 falências de porte foram decretadas desde abril, com passivos acima de US$ 1 bilhão cada. Sem contar a quebra de US$ 26 bilhões da Pacific Gás & Electric, dizimada pela crise energética da Califórnia.
Pelo lado róseo do tipo ''o pior já passou'', há quem sustente que o repto do terror pelo terror estaria precipitando a reaceleração da locomotiva em pane a golpes patrióticos de afrouxamento monetário e tributário. Além da blindagem tópica de ramos industriais, comerciais, financeiros e de serviços diretamente atingidos pelos escombros da covarde imolação de Manhattan.





