A dolarização é uma solução de primeira classe para economias nacionais de quinta categoria.''
Robert Barro, Prêmio Nobel de EconomiaBeco sem saída
Quem lançou a bola quadrada da dolarização oficial na grande área do impasse cambial da Argentina foi o próprio presidente Fernando de la Rúa, em entrevista à revista inglesa The Economist.
Com o texto integral aqui na minha mesa, dá para interpretar que o presidente argentino falou em ''sentido figurado'' e não em tom de um iminente abandono formal da moeda nacional.
Mas bastou o suspiro do presidente De la Rúa, por cima e ao largo do espirro do ministro Cavallo, para deixar o mercado global, o do capital volátil, pela enésima vez em sobressalto. E cá por estas bandas e bandos, com meio mundo outra vez ensaiando protelar negócios, projetos e contratos no aguardo da solene dolarização do vizinho. Sin embargo, dolarização pós-eleição.
Nas entrelinhas da fala presidencial, o reconhecimento de uma dolarização informal já existente, construída dólar com dólar num desenho lógico - desde a hiperinflação, sem indexação, de 1989.
Lembram-se? Os brasileiros refugiaram-se da inflação anual de quatro dígitos apelando para o banco da esquina, em cruzeiros indexados ou corrigidos. Os argentinos safaram-se da inflação anual de cinco dígitos trocando pesos/austrais derretidos por dólares americanos dentro e fora do país.
O certo é que, nesta altura do calendário, décimo ano corrido da conversibilidade garantida, em regime de paridade fixa, os argentinos desfilam 67% dos depósitos bancários totais em dólar e 83% das dívidas hipotecárias totais igualmente em dólar. Mas os salários estão expressos em moeda nacional. As empresas e os governos estão com praticamente 90% das receitas, despesas e dívidas devidamente dolarizados. Fechando a roda, a economia informal, nos terminais do consumo, deu de exigir ágio de 10% nas vendas em pesos.
Abrir o câmbio trancafiado há dez anos produziria algo mais que um ''overshooting'' talebânico. Até por decepção coletiva ou traição oficial, provocaria o abandono sumário da moeda nacional, com hiperinflação em pesos rejeitados. No dia seguinte, a coisa funcionaria assim na loja da esquina: par de tênis por 44 em dólar ou por 99 em peso.
Dolarizar juridicamente, Plano B, exigiria melindrosa negociação da Casa Rosada com a Casa Branca. Yes, o banco central argentino ficaria online com o Federal Reserve (Fed, o banco central americano). Este passaria a responder, em nome daquele, pelo poder emissor, pelo papel de emprestador de última instância, pela função de supervisão bancária e pela apropriação das receitas ou ganhos de senhoriagem. Que tal?

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