''Deus acertou em cheio quando limitou nossa inteligência. Mas cochilou feio quando não limitou nossa ignorância.''
Friedrich Nietzsche (1844-1900), filósofo alemãoDe soluço em soluço
A economia brasileira esperava crescer até 5%, este ano, empurrada pelo impulso de banguela do ano passado, com expansão de 4,5%. O setor industrial, isoladamente, saltaria de 6,2% para 7,5%. Nos tanques da retomada, um crédito bancário maior por um custo menor - com direito a uma Selic de 12% para este último trimestre. Ah! O ilustre IPCA caindo no ano de 6% para 4%, ele que no ano passado já havia recuado de 9% para 6%.
Inflação de demanda, uma ova! Mas há quem ainda cavalgue a análise estrábica segundo a qual a inflação só declina quando o consumo desaba e a produção encalha. Como explicar, em 2000, carestia em baixa com economia em alta? Ou, agora em 2001, economia em baixa com carestia em alta?
O PIB gregoriano não deve passar de 2%, com IPCA acima de 6,5%. E uma Selic terminal de 19% ajudando a explicar a retração ainda maior do crédito bancário no ano. Os empréstimos ao setor produtivo caíram, de janeiro a setembro, de 34,8% para 32,5% dos ativos totais dos bancos, segundo a Austin Asis.
Se faltou explicação para a retomada geral em 2000 - na contramão da implosão da Nasdaq, do (re)pouso da águia americana, da baixa apetência européia e da estagnação japonesa - sobram explicações para a ''reversão da reversão'' verde-amarela neste ano de tantas turbulências lá fora e de tantas atribulações aqui dentro.
A cantilena vai da desaceleração da economia global à agonia rosca sem-fim da Argentina, passando pela desgarrada do câmbio, pela escalada dos juros, pela recarga dos impostos e pelo apagão mental do ''fomos pegos de surpresa''. E o que dizer dos estilhaços emocionais e parabélicos, no mundo inteiro, Brasil no meio, da criminosa implosão das torres gêmeas de Wall Street?
Dá para tomar uma AmBev antes? Pois, que não se perca pelo catastrofismo a dimensão correta dos nossos trancos e barrancos. A economia brasileira não está em recessão. A carestia não escapuliu da jaula de um dígito no ponta a ponta de 12 meses. Ou, como já foi grifado aqui: o real amoleceu no câmbio para fora, mas não perdeu o rumo nem o prumo aqui por dentro. A perda do poder de compra da moeda nacional no mercado interno (onde a gente vive ou sobrevive) não tem ido além de 6,5% desde outubro do ano passado.
Certo, no câmbio e nos juros continuamos reféns do déficit externo em conta corrente. Que não é maior, em 2001, que o de 2000 (quando se leva em conta a atrofia contábil do PIB pelo dólar supervalorizado desde fevereiro).

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