Joelmir Beting
''Má notícia: o mundo vai acabar ainda antes do Natal. Boa notícia: o Brasil só acabará depois do carnaval.''
José Maria de Jesus, mestre-salaVolta às cavernas
Ao tempo em que o maior predador do homem era o tigre ou o dragão, as tribos se refugiavam nas cavernas, ardendo fogo na entrada. Agora, em que o homem se consolida como o maior inimigo do homem, dispondo de armas nucleares, químicas e biológicas, que nos ameaçam também como espécie e não apenas como indivíduo, a segurança física, mais que o revide militar, torna-se a grande indústria do século 21.
O toque de mobilização começou na manhã dos horrores de 11 de setembro, no destroçado coração financeiro de Manhattan, umbigo do mundo. Força-tarefa da Associação Nacional de Normas de Contabilidade Financeira espera concluir, ainda em outubro, a avaliação oficial das perdas materiais, diretas e indiretas, das empresas afetadas pelos atentados terroristas - soma do que se perdeu com o que se deixou de ganhar (lucros cessantes).
Tenta-se transportar o inventário da tragédia para notas de rodapé dos balanços anuais a partir de março. Para todos os fins e direitos de cada corporação. Haverá confusão em torno dos lucros de redistribuição (dividendos) e/ou das perdas de diferimento fiscal. Em especial, nos cinco segmentos diretamente mais chocados na praça de Nova York: o financeiro, o imobiliário, o segurador, o hoteleiro, o locador e o aeroviário.
Com a estréia do vírus postal - que não descarta alguma nova ''blitzkrieg'' do vírus digital do ciberterrorismo -, a indústria do medo abre as asas sobre nós. Lá como cá. Nas fábricas, nos escritórios, nas lojas, nos transportes, no turismo, no esporte, no show biz, nas escolas e até nos hospitais - sem contar igrejas e quartéis.
Relatório preliminar da Travel Industry Association of America simula para este último trimestre e para os quatro trimestres de 2002 um lucro cessante da ordem de US$ 115 bilhões. Sem contar a sobrecarga de até 80% dos seguros patrimoniais e de vida (agora com crachá de essencialidade 1). Além, claro, da demissão sumária de 130 mil na aviação comercial e mais 210 mil na hotelaria e afins e nos agenciadores de viagens.
Governos e empresas refazem conceitos, estatutos, processos e sistemas de segurança. Da vigorosa retomada dos orçamentos de Defesa nacional à contratação de consultorias e de auditorias de segurança, a nova indústria do medo espera contar com o guarda-chuva de um pacto global contra o sigilo da lavanderia de dinheiros encharcados de lama e/ou de sangue. O crime organizado, com lavagem anual acima de US$ 1 trilhão, segundo a Kroll, deve estar bufando de raiva do terrorismo talebânico.





