Joelmir Beting
''O capital é como o vento: só entra onde tem saída.''
Provérbio árabeDe bom tamanho
A transfusão do capital produtivo das empresas transnacionais para a economia brasileira anêmica de divisas e esfolada de dívidas (e de dúvidas) vai mesmo fechar o ano abaixo de US$ 19 bilhões, contra mais de US$ 33 bilhões no ano passado. Redução ao redor de 45%.
Uma tragédia? Primeiro: o refluxo dos investimentos diretos dessas empresas, no mundo todo, em tempo de desaceleração sem fronteira e de recarga emocional da ''aversão ao risco'', já é de 40% no ano. Segundo: que não se perca dessa conta a maxidesvalorização do real, em torno de 45% no ano. Ou seja: os quase US$ 19 bilhões de 2001 desfilam o mesmo poder aquisitivo interno que os mais de US$ 33 bilhões de 2000.
Ou como diz o professor Antônio Corrêa de Lacerda, presidente da Sociedade Brasileira de Estudos de Empresas Transnacionais e da Globalização Econômica (Sobeet): ''Seria um espanto se o capital externo estivesse repetindo a dose nominal (em dólares) do ano passado para tamanha desvalorização cambial dos ativos nacionais. A aversão ao risco, pelo menos em relação Brasil, não é a do capital produtivo. É a do capital volátil, que é do ramo da paranóia.''
Dados cruzados pela Sobeet revelam que o Brasil constitui o quinto maior risco do mundo no capital volátil e, coincidentemente, o quinto menor risco do mundo no capital produtivo. No primeiro, infusão maligna, a taça de chumbo é disputada por Argentina e Nigéria. No segundo, recurso benigno, só perdemos para Estados Unidos, Grã-Bretanha, Alemanha e França.
Sondagem de Fernando Dantas (Estado, 15/10/2001), junto a analistas ligados a empresas transnacionais, indica que haverá, sim, uma desaceleração dos investimentos estrangeiros no País. E não só por obra do ''strong dollar'' ou do contágio do antraz argentino. É que o pico da safra de privatizações (e de incorporações) já passou.
Os ativos estatais remanescentes nos ramos de energia elétrica, transporte intermodal e saneamento básico não despertam o apetite externo - por enquanto. Não bastasse o novo quadro de depressão internacional, o programa de desestatização brasileiro continua desfalcado de marcos regulatórios confiáveis.
A mesma sondagem aponta para um declínio motivado pela própria maturação da baciada de projetos tocados desde 1995, já nas águas mornas da estabilização do real. Essa primeira megaonda significou para o ingresso do capital produtivo um salto de US$ 1 bilhão por ano para perto de US$ 30 bilhões na média anual do triênio 1998/2000. A dólar de hoje, transfusão equivalente a 5,5% do PIB. Um espanto.





