Joelmir Beting
''As duas maiores ficções da Economia, ainda levadas a sério, são a média estatística e a taxa de câmbio.''
Juliano Bastide, sociólogoTeto virou piso?
Um leilão cambial por dia útil e desagradável, desde os horrores de 11 de setembro. Eis a estratégia antiterror adotada pelo Banco Central nos campos minados do câmbio flutuante sobressaltado. A manutenção dos juros no alto e alguma desova das reservas de segurança completam o regime de intervenção no câmbio.
O desafio é talebânico. O real já acumula, aqui na ponta, desde a ruptura da banda, em janeiro de 1999, uma maxidesvalorização nominal de 131%. Pior: boa penca de analistas financeiros aposta que o dólar acima de R$ 2,70 deixou de ser teto e já virou piso. Sem a intrusão do Banco Central, dizem eles, a cotação da moeda americana já estaria acima de R$ 3,20.
''O Banco Central deu de agir no câmbio como num filme de mocinho: recua atirando. Ele faz intervenções, mas está sempre admitindo para hoje um patamar de câmbio maior que o de ontem.''
Assinado: José Roberto Mendonça de Barros, ex-secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda (in Valor, de ontem).
A pressão sobre o câmbio deve continuar em quinta marcha. A busca da proteção cambial pelos bancos, pelas empresas e pelos investidores individuais está sendo atiçada, segundo Mendonça de Barros, pelo tripé terrorismo intangível, agonia argentina e desequilíbrio externo. Três forças telúricas sobre as quais a autoridade monetária exerce a mesma capacidade de ação que os meteorologistas têm sobre o clima.
Tanto assim que o consultor Gustavo Loyola, ex-presidente do Banco Central, desconfia que a tensão cambial de mercado já estaria turbinada por uma dinâmica própria. Qual seja: 1) a expectativa de alta continuada estimula a compra de dólares (para proteção legítima ou para especulação de praxe); 2) a demanda, assim refertilizada, sanciona a expectativa de alta. Confraternização geral na praça.
Qual seria a arma química do Banco Central para a reversão desse câmbio do medo? Uma violenta puxada na taxa básica de juros, a Selic de 19%, na reunião que começa hoje e bate o martelo amanhã. O coice-de-mula teria de situar-se perto de 35%. Mexida cosmética, tipo 19,50% ou 21,50%, nesta altura do calendário, pondera Loyola, seria o mesmo que agarrar míssil com laço de boi.
Ou será que não? Uma elevação de guerra de 16 pontos porcentuais na atual Selic, de 19% ao ano, produziria nos encargos anuais da dívida pública um estrago do tamanho de R$ 41 bilhões. Algo parecido com a queima de toda arrecadação acumulada da CPMF de 0,38% nos próximos 27 meses. Nem pensar.
Secos & Molhados
Até quando?
- O novo ''estado de guerra'' no mundo não tem data para acabar. Se o câmbio nosso de cada dia permanecer antenado no noticiário monitorado da CNN, o negócio é a gente juntar os trapos e pedir asilo político na Nova Zelândia.
E o vizinho?
- Há que se aguardar, nesta semana, a desova do depois das eleições legislativas na Argentina. Mas há quem prefira aguardar o depois das eleições presidenciais aqui no Brasil. Com um provável vexame da pátria de chuteiras na Copa do Mundo em junho.
Para fora
- Mendonça de Barros lembra que um ''choque exportador'', prometido desde 1995, teria alguma chance de reverter o câmbio - em 2003.
Para dentro
- Um despertar do mercado interno de capitais (sócio no lugar do credor) também reduziria as dívidas privadas interna e externa, lembra o analista Roberto Teixeira da Costa. Isso acalmaria o câmbio e murcharia o juro - em 2004.
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