Joelmir Beting
''Continuamos longe demais da riqueza atingível e perto demais da pobreza corrigível.''
Roberto Campos (1917-2001), economistaLanterna na proa
Do lançamento do primeiro livro de ensaios políticos A Técnica e o Riso, de 1967, ao discurso de despedida do Congresso, em janeiro de 1999, passando pelo vasto cabedal de memórias em Lanterna na Popa, de 1994, Roberto Campos não saiu do rumo nem do prumo. Deixou-se chumbar a uma obstinação racionalista para apontar e avaliar defeitos e virtudes de nossa ''sociedade de viés instintivista e permissivista''.
A começar do que ele chamava de ''defeito de origem'': o de ter sido o Brasil ''um país desavisadamente descoberto por estrangeiros''. Para desconsolo, ainda hoje, dos posseiros do nacionalismo. Campos fazia distinção entre nacionalismo e patriotismo: ''O patriota ama tudo o que é nosso. O nacionalista odeia tudo o que é dos outros.''
Ele se confessava um profissional frustrado em todos os seus afazeres em Brasília (centro de poder que ele definia como ''bazar de ilusões e usina de déficits''). Desencanto no governo (1964/1967), por ter participado da estabilização liderada por Octávio Gouvêa de Bulhões, sem ter conseguido planejar o desenvolvimento sustentado e sustentável (''fracasso conjunto de minha geração'').
Com o adendo cáustico: ''O enorme prestígio político do planejamento econômico no Brasil, tangido pelo voluntarismo do Projeto Nacional, só tem sido comparável à extensão de seu fracasso. Não conseguimos sequer planejar o contrato constitucional do Estado e da Nação. Nossa Carta de 1988 é promiscuamente híbrida no plano político, anacronicamente intervencionista no econômico e demagogicamente utópica no social.''
Sobre a frustração no Congresso (1983-1998): ''Como senador e como deputado não consegui ser um grande articulador nem um grande operador nem um grande mobilizador. Fui, antes, um pregador. Ou um profeta sem carisma. Previ o colapso intestino do projeto global do comunismo no rodapé do avanço erradio do processo natural do capitalismo. Sem imolar a liberdade, a economia de mercado erra muito. Mas erra bem menos que a economia de comando. Países pobres e injustos padecem não do liberalismo, mas da falta de liberalismo. No qual ainda somos noviços destreinados.''
E mais: ''As nações só podem ser salvas pelo sucesso que germina confiança ou pelo fracasso que provoca mudança. O perigo mora é no meio-sucesso ou no meio-fracasso - que só produz 'ad quietem' acomodação, escapismo e procrastinação.''
Secos & Molhados
Não dá liga
- Roberto Campos classificava a práxis Política como ''a utopia alegre da abundância'', sistematicamente desmoralizada pela Economia, ''ciência severa da escassez'', na sentença de Carlyle.
Sem juízo
- A doença verde-amarela, segundo ele, está menos na ganância do setor privado e mais na gastança do setor público: ''O governo nunca governou porque não se governa e não se deixa governar.''
Sem régua
- Ainda: ''O déficit público é tolerado pela nossa revolta contra a aritmética: não admitimos que a soma das partes não possa ser maior que o todo. Sequer desconfiamos que eleger prioridades diversas é o modo infalível de aviltar todas elas.''
Por último
- Roberto Campos era lógico e não político. Absorveu críticas e ruminou insultos como ninguém. Aprendeu com Kafka que, onde a lógica não vinga, reina o sorriso. Ele riu por último.





