Joelmir Beting
''Não pode haver consumidor patriótico para um desemprego que nada tem agora de patriótico.''
Steven Shaffer, economista americanoReverter a reversão
A economia americana, geradora de US$ 9,4 trilhões por ano, já estava devagar, quase estagnando, antes dos atentados terroristas de 11 de setembro. Em agosto, o paparicado índice de confiança dos consumidores, que fazem o reator de 68% do PIB americano, já cravava seu nível mais baixo em nove anos.
Ou como suspira o desprestigiado Paul O'Neill, secretário do Tesouro: ''A desaceleração da economia não é vitória do terrorismo. Bem ao contrário, os atentados terroristas precipitaram a adoção de medidas de reaquecimento econômico tidas anteriormente como politicamente inaceitáveis.''
Agora, a taxa de desemprego ensaia saltar de 4,9%, em setembro, para 6% em janeiro, na estimativa do Departamento do Trabalho (algo parecido com o corte de 1,5 milhão de ocupados ainda antes do Natal do velório nacional). A lógica do sistema, no caso, é draconiana: o consumidor reduz o consumo de hoje, contratando a demissão de amanhã. A perspectiva de demissão amanhã justifica a redução do consumo hoje.
Sem mistério. Desde Henry Ford, o ''homo economicus'' do Tio Sam reza o credo: quem garante o emprego do trabalhador é o consumidor, que é o próprio trabalhador. Um consumidor que já se fazia ressabiado, desde março de 2000, pela perda de um terço, em média, do chamado efeito riqueza, em bolsas e fundos de ações.
Seguinte: metade da população adulta tem pé-de-meia no mercado acionário. A maioria chega a endividar-se em banco para aplicar em ações. Caso único no mundo: a) toma-se empréstimo bancário a um custo anual médio de 12%; b) ganha-se em bolsas e fundos até 24% ao ano na média do triênio 1997/1999; c) a sobra líquida vai assim, por meio das bolsas, dos bancos para as lojas; d) a um só tempo, o sistema hedonista estimula a poupança e o consumo.
Com a reversão do processo, o governo chocado tenta reverter a reversão pelos atalhos de um excedente econômico recorde: baixando juros e cortando impostos. A recessão tornou-se politicamente intolerável para o salão oval da Casa Branca. Onde já se fala, pela primeira vez, em ''segurança econômica'' no arsenal da defesa nacional. Nem Lord Keynes, papa do Estado arbitral e indutor, teria ousado tanto na Grande Depressão dos anos 30.
Quem torce o nariz para o keynesianismo fiscal de choque é o economista Paul Krugman. Que não deixa por menos: os cortes de impostos, já anunciados, são insuficientes para o mercado a curto prazo e excessivos para o governo a médio e longo prazos.
Secos & Molhados
Um pacotão
- Pelo sim, pelo não, governo e Congresso costuram um programa nacional de relançamento da economia. Ele vai juntar medidas já decretadas com novos incentivos ainda em exame. A divulgação deve totalizar todos os estímulos diretos e indiretos para impactar positivamente a população.
É de guerra
- O pacotão vai juntar redução de juros, expansão de empréstimos, corte seletivo de impostos, abertura de gastos públicos (e obras idem) e linhas especiais para empresas e setores traumatizados pelo efeito terror. Com o sinal verde de Alan Greenspan, o ''senhor dos mercados''.
BIG-Business
- E a defesa nacional (industrial-militar)? Ela aciona US$ 310 bilhões por ano e emprega 12 milhões de americanos. Foi salva pelo gongo, pós-guerra fria, de cortes severos. Em 1991, por Saddam. Em 2001, pelo Taleban. Fácil.





