''Disseram que quebraríamos com risco Argentina acima de 1.200. Pois a coisa já passou de 1.900 e estamos todos sobrevivendo...''
Rosendo Fraga, cientista político argentinoMerece ser salvo
Ainda é cedo para imaginar o Mercosul literalmente consumido pela Alca, a partir de 2006. Mas já passou da hora de continuar brincando de esvaziar o bloco regional por falta de jeito e falta de treino em matéria de união aduaneira. Algo mais integrado que o tal de mercado comum pero no mucho.
Brasileiros, argentinos, uruguaios e paraguaios, com sobras para chilenos e bolivianos, não têm cultura de extroversão econômica. Ao menor litígio no interior do bloco, o parceiro no contrapé cuida de chutar o pau da barraca do próprio. É o que vem fazendo o ministro argentino Domingo Cavallo, desde que retomou o projeto pessoal de salvação nacional.
Nesta terça-feira, em São Paulo, brasileiros e argentinos estão a fim de passar o Mercosul a limpo, trocando figurinhas sobre o inventário do que já foi feito e, sobretudo, do que ainda resta a fazer para a consolidação da letra viva do Tratado de Assunção.
O tema foi tangenciado, ontem, em Brasília, pelos presidentes Fernando Henrique Cardoso e Fernando de la Rúa. E deve empolgar, hoje, o seminário sobre ''o futuro do Mercosul'', com participação de ministros, diplomatas, consultores e empresários dos dois países. Em pane, o lado argentino desembarca sobrecarregado pela proposta de dolarização oficial na Argentina, enquanto reclama da desvalorização cambial no Brasil.
Em transe, o lado brasileiro avisa que, cá como lá, a política cambial se tornou da variedade imexível. Até porque os argentinos - que deram de exigir compensações tarifárias para as turbulências cambiais do real - estariam chorando de barriga cheia na ponte comercial com o Brasil.
Relatório do Itamaraty, abastecido pela embaixada brasileira em Buenos Aires, comprova que o câmbio flutuante aqui versus câmbio estático lá ainda não reverteu do azul para o vermelho o saldo da balança da Argentina com o Brasil. Desde janeiro de 1999, desmonte da banda cambial brasileira, os empresários argentinos entoam o tango de uma nota só: a desvalorização continuada do real vai banir os produtos argentinos do mercado brasileiro e inundar o mercado argentino com similares brasileiros...
Não é o que ocorre. Em setembro, por exemplo, nas trocas diretas com a Argentina, o Brasil vendeu 6,7% mais e comprou 39,3% mais. No ano, real desvalorizado aqui na ponta em torno de 50% na paridade com o dólar/peso, o vizinho acumula superávit de US$ 843 milhões, contra menos de US$ 350 milhões no ano passado (dólar médio de R$ 1,78). Que tal?
Secos & Molhados
Consenso 1
- Exceção dos industriais argentinos, é consenso nos dois lados da mesa que o Mercosul merece ser salvo. Ruim com ele, pior sem ele - para a musculação conjunta das economias nacionais. O bloco regional é adestramento para o mercado global.
Consenso 2
- A consolidação (e ampliação) do Mercosul engrossaria a voz da região para a barganha espinhosa do acordo comercial com a União Européia e para a costura melindrosa da Alca com a agora robustecida diplomacia econômica dos Estados Unidos.
Consenso 3
- O futuro do Mercosul passa pela manutenção da união aduaneira - que tem expressão na Tarifa Externa Comum (TEC). Ou seja: o regime tarifário que torna mais caros produtos importados de países fora do bloco. Uma TEC ajustável.
Consenso 4
- Analistas do Mercosul acham que o seminário de hoje deveria ter sido agendado para a última terça-feira de outubro, 30. Haveria tempo de digerir o pacote argentino aviado para o ''depois das eleições'' de domingo, 14.

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