Joelmir Beting
''A Argentina insiste em empurrar todas as crises com a barriga. O problema é que ela ainda não sabe que já acabou a barriga.''
Hernando Zahar, economistaEfeito milonga
Porque as eleições legislativas estão marcadas para domingo da semana que vem, a indústria do boato deita e rola no noticiário econômico da Argentina. Candidatos governistas espalham que o ministro Domingo Cavallo, frustração nacional, está mesmo a fim de pegar o boné. Candidatos da oposição preferem vociferar que Cavallo é inarredável e, pior ainda, prepara um choque fiscal bem mais perverso para o famigerado depois-das-eleições.
Em tempo: em tendo êxito na gestão da crise rosca sem-fim, o superministro da Economia seria o candidato natural do governo à presidência da República em 2003. A criatura bateria de frente nas urnas com o criador, o ex-presidente Carlos Menem. Claro, se desembaraçado, até lá, das denúncias de contrabando de armas e tráfico de influência quando de seu longo inquilinato na Casa Rosada.
Pelo sim, pelo não, o risco Argentina, calibrado de fora para dentro, nunca esteve tão elevado. E o Índice Merval, o da Bolsa de Buenos Aires, emplacou ontem sua pontuação mais baixa desde março de 1991, ainda antes da adoção do regime de conversibilidade cambial com paridade fixa peso/dólar.
Na percepção dos analistas financeiros, novos senhores do mundo, o último cartucho de Cavallo, o plano do ''déficit zero'', acaba de ser implodido por uma queda de 14% na arrecadação tributária de setembro. Quer dizer: sobre ser desagradável, tornar-se-á inútil o pesado custo social (e político) desse ajuste fiscal bravateiro.
Entre outras privações coletivas por decreto, o corte salarial do funcionalismo federal (pior que o congelamento brasileiro do ramo) e o embargo de repasses aos governos provinciais não menos asfixiados. Essa paralisia do setor público só faz por aumentar a aflição dos aflitos: o declínio continuado dos negócios, dos rendimentos e dos empregos no setor privado, em estado de deflação mais viscosa que a japonesa.
O impasse fiscal é o efeito e não a causa do desastre argentino. O mal de raiz está na teimosia do câmbio fixo. O que deveria ter sido adotado em caráter transitório, para debelar a hiperinflação dos anos 80, transmudou-se, por opção política triunfalista, numa alquimia monetária sacralizada e irreversível. O problema é que essa suposta blindagem cambial se revelou vulnerável aos solavancos da globalização financeira, aos acidentes de percurso do comércio internacional e, desde 1999, à desvalorização do real e do euro, moedas de troca de metade do comércio exterior da Argentina. Dá para tomar uma Quilmes antes?
Secos & Molhados
Sem cintura
- O lembrete é de João Carlos Scandiuzzi, do Banco Pactual: câmbio fixo não dá liga com pauta de exportação ainda refém de ''commodities'' na proporção de dois terços dela. Austrália e Nova Zelândia, com pautas do mesmo perfil argentino, preferem o câmbio flutuante para um mercado idem. Os primários perderam 34% do preço médio desde o ''crash'' asiático de 1997.
Outro azar
- Chumbado à moeda americana, o câmbio fixo deu azar em dobro: o dólar nunca esteve tão forte (nas demais moedas) como nestes últimos cinco anos. Mais forte que o ''strong dollar'' de Reagan no triênio 1983/85.
Caramujo
- Resultado: nas duas mãos, o comércio exterior argentino não tem passado de 17% do PIB (contra 22% do Brasil ou até 50% da tigrada asiática). O país não tem torque para financiar-se com superávit comercial. Acumula dívida externa de US$ 130 bilhões (quase metade do PIB) e tem 93% da dívida interna dolarizada.





