''Se um problema não tem solução, deixa de ser problema e vira um processo. Não para ser resolvido, mas para ser gerenciado.''
Shimon Peres, político israelenseGestão do choque
A taxa interbancária de juros, calibrada pelo Fed, banco central americano, rebaixada anteontem para 2,50% ao ano, só tem similar na mesma taxa praticada há 39 anos e meio, maio de 1962. Não por acaso, tempos de guerra, lá como cá. Hoje, as ondas de choque do terror pelo terror. Na época, os mísseis soviéticos engatilhados em Cuba, em plena escalada kennediana da guerra do Vietnã.
Como a inflação americana acumula 2,7% nos últimos 12 meses, tem-se que a taxa básica do Fed, em termos reais, se situa agora abaixo de zero, vulgo juros negativos. Ou se preferem: altamente positivos para desfibrar a poupança e reatiçar o consumo. Outro não é o objetivo do ''stop-and-go'' monetarista, agora escoltado pelo ''stop-and-go'' tributarista, de corte neokeynesiano.
Em maio/dezembro do ano passado, o mesmo Fed havia catapultado esse piso do custo do dinheiro para 6,50%, contra 4,75% de novembro de 1998 a agosto de 1999. Em seis puxadas encavaladas, aquela alta dos juros, com aviso prévio, teve como duplo objetivo resfriar o radiador fervente dos negócios e desligar a ''irrational exuberance'' das bolsas. No último trimestre de 1999, o PIB americano chegou a emplacar um índice anualizado de crescimento de padrão chinês: 8,3%.
O pouso forçado da águia (PIB de 0,3% no segundo trimestre de 2001) deu-se por fadiga do material do sistema, ao fim e ao cabo de quase toda uma Década de Ouro. Mas há quem jure por todos os juros que a desaceleração, que já dura sete trimestres corridos, teria resultado do ''sucesso da criogenia monetária'' operada por Alan Greenspan e ilustres pares acadêmicos do Fed.
Ou seja: basta levantar a taxa básica de 4,75% para 6,50% ao ano para colocar de joelhos, comendo poeira, uma economia altamente competitiva do tamanho de US$ 9,4 trilhões (a dólar de 2000). Será verdade isso? Se assim é, vale sofismar: a queda abrupta dessa mesma taxa básica, desde janeiro, de 6,50% para 2,50%, haverá de relançar o PIB americano para uma expansão anual aí pela média de 4,2%, a mesma do triênio 1998/2000. Certo?
Errado. Uma certa análise econômica estabelecida, com viés sadomasoquista, garante que os juros funcionam para o alto, mas não funcionam para baixo... Quer dizer: um aumento de 2,75 pontos porcentuais na taxa do Fed, em nove meses, desacelerou tudo, mas uma redução de 4 pontos porcentuais na mesma taxa, também em nove meses, não vai reacelerar coisa alguma. Pode?
Sim, os arautos da sinistrose apontam a eclosão de nova força telúrica, com massa crítica para destroçar estímulos financeiros e incentivos fiscais: a queda brutal da confiança do consumidor nos rumos da economia interna em transe e nos prumos da defesa nacional em pane.
Secos & Molhados
Em depressão
- Para a maioria dos analistas do trauma emocional americano, a economia resvala para a recessão e a sociedade para a depressão. A minoria discorda e alerta: não vale projetar para o futuro o choque do presente. A bolha do pânico vai murchar e a onda do sistema vai continuar.
Em mutirão
- Medidas pontuais de estímulo já estão em pleno curso: redução de juros (acompanhada por todo o G-7 solidário), ampliação induzida da liquidez bancária, linhas e fundos de resseguro e de reconstrução, novos contratos do poderoso complexo industrial-militar, novos projetos de tecnologias sensíveis, novos cortes na carga tributária de pessoas e empresas...
Em vigília
- O maior desafio, entretanto, está em despertar o ''consumo patriótico'' da população. Agora na vigília, em 86% dela (Time/CNN), não de um primeiro revide militar, mas de um segundo atentado terrorista.

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