''O pessimista garante que já se chegou ao pior. O otimista acha que dá para piorar ainda mais.''
Abel Agabenguian, economista russoGuerra é guerra
O reajuste das tarifas aéreas, em tempos bicudos de vacas voadoras magras, não constitui um paradoxo de mercado, dizem os executivos da Varig e da TAM. Trata-se de repasse parcial mínimo, às tarifas em liberdade, dos custos encavalados do câmbio e do seguro.
O seguro na terra e no ar subiu em velocidade Mach 3 em quase todo o mundo. Efeito bate-pronto dos atentados terroristas de 11 de setembro, agravados pela expectativa de novas tragédias do ramo em qualquer canto do mundo. Para 86% dos americanos, ouvidos pela Time/CNN, haverá novos atentados aterradores, dentro dos Estados Unidos, até 11 de setembro do ano que vem...
A recarga dos seguros nos transportes em geral, nas grandes edificações urbanas, nas instalações industriais, comerciais e de esporte/showbiz, vai virar uma onda a partir de janeiro, quando do vencimento da quase totalidade dos contratos de resseguro em todo o mundo. Presidente da Itaú Seguros, Luis de Campos Salles informa que a demanda por cobertura de ''risco de guerra'' vai ficar explosiva.
Na aviação comercial, onde o terror pelo terror passa a namorar também os cargueiros em geral, o tipo Boeing 767, o que derrubou a segunda torre do WTC, já teve a conta anual do respectivo ''seguro do casco'', para as operadoras americanas, remarcada de US$ 5,5 milhões para US$ 80 milhões. Ao tempo em que essas mesmas empresas acusam quebras de até dois terços na ocupação de bordo.
Três ressalvas: 1) a crise da aviação comercial já estava no ar desde o ano passado, tempo de pouso forçado da águia americana, com sobras para a desaceleração européia e asiática; 2) o governo americano já abriu os cofres para, em nome da ''economia de guerra'', socorrer as companhias em processo de estolagem comercial; 3) as empresas estressadas não perderam a deixa e cuidaram, ligeirinho, de cortar de 10% a 30% do pessoal sem opção.
Antes da covarde imolação de Manhattan, os governos de meio mundo descartavam qualquer ajuda ao transporte aéreo em crise. Assim como as empresas vacilavam em cortar na carne do pessoal. Havia imagem pública a zelar. Agora, a exposição de motivos para a dispensa sumária tornou-se meridiana: guerra é guerra! E com esse traumático enxugamento atingindo igualmente os fabricantes de aviões e componentes. Incluída nossa globalizada Embraer.
No outro lado do Atlântico Norte, a aviação européia acusa queda de até 70% na ''ponte aérea'' para os Estados Unidos. Um jato d'água que acaba de fazer transbordar o cálice da concordata da provecta Swissair, condomínio de 72 mil funcionários perplexos.
Secos & Molhados
Chutometria
- Entidade global do transporte aéreo, a Iata sai a campo, ainda com a cabeça nas nuvens, para acalmar banqueiros e passageiros: ''Sentem que o leão é manso!'' Ela garante que o mercado voltará a crescer no ''pico'' sazonal de novembro/dezembro. E aposta em queda de, no máximo, 17,5% na travessia do primeiro semestre de 2002, cotejado com o mesmo período de 2001.
Todos na toca
- Enquanto isso, o World Travel and Tourism Council, já com os pés no chão, refaz cálculos e palpites sobre as ondas de choque no setor. A hotelaria internacional registra quedas de 52% em Nova York, de 34% nos Estados Unidos, de 31% na União Européia e de 24% no Sudeste Asiático. Pessoas cancelam viagens aladas e empresas protelam negócios off-line.
Sem mistério
- Avião e hotel são irmãos siameses. O que separa o avião do hotel é apenas um táxi. E o táxi passa a dormir no ponto porque viagens e turismo integram a ''indústria do otimismo''. Que não rima com terrorismo.

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