''Todo regime de câmbio flutuante fecha a porta do purgatório. Com ele, ou subimos para o céu ou descemos para o inferno.
Antônio Kandir, deputado federal (PSDB-SP)Dose para anta
De janeiro a setembro, o real acumula uma desvalorização nominal de 37%. O que equivale a uma desvalorização real de 32% pelo IPCA, índice predileto do governo. Ou de 30% pelo IGPM, índice favorito do mercado. Não se leva em conta, aqui, a inflação americana no mesmo período.
O certo é que uma perda em termos reais de 32% em nove meses (aqui na ponta) é dose pra leão. Perdão, dose pra anta. Com intervenções tempestivas do Banco Central . Sem as medidas de contenção do câmbio livre, adotadas na semana passada, a moeda americana já estaria valendo, nesta largada de outubro, algo próximo de R$ 3,00.
Desde a estréia do real, em julho de 1994, a cotação da moeda americana oscilou do subsolo de R$ 0,83 para o pára-raios de R$ 2,83, em 21 de setembro que passou - e já foi tarde. Com o arsenal agora desembainhado a seis mãos pelo BC, pela CVM e pelo CMN, conseguirá o mercado em liberdade reencontrar-se com a chamada taxa cambial de equilíbrio?
Ou antes: onde estaria localizada hoje essa cotação efetiva na sopa de um mercado tranquilo? Abaixo de R$ 2,50? De R$ 2,40? Há quem aposte em algo parecido com R$ 2,30. Em janeiro, ainda antes dos tombos cavalares da Argentina, aqui ao lado, projetava-se para 2001, na média deste último trimestre, cerca de R$ 2,15. No último trimestre do ano passado a coisa contentou-se com R$ 1,81.
Única certeza, por enquanto: o governo não vai abrir mão do câmbio flutuante, caminho sem volta. Palavra de Marcos Caramuru de Paiva, secretário de Assuntos Internacionais do Ministério da Fazenda. Palavra de Armínio Fraga, presidente do Banco Central. Palavra do presidente Fernando Henrique Cardoso.
Nem poderia ser diferente. Sobre ser um regime cambial menos imperfeito para um país ainda externamente vulnerável, na praça de tiroteio de um mercado cada vez mais volátil, no ventre de uma economia cada vez mais global, nenhum governo ajuizado cometeria o deslize de passar aviso prévio sobre mudanças nessa abrasiva matéria. Ou como dizia Simonsen: em política cambial, o governo se permite o direito de desconversar ou até mesmo de mentir...
Com o detalhe: o governo também deve calçar as chuteiras e entrar no jogo bruto do mercado flutuante, sem desligar a flutuação do próprio. É o que acontece nas melhores economias: as autoridades monetárias participam do mercado livre, quando necessário. E a simples idéia de que as burras do governo podem ser despejadas na praça já basta para manter a flutuação cambial em banda média.
Secos & Molhados
Arsenal
- Na semana passada, um pacote de medidas pontuais, com precisão cirúrgica, cuidou de desovar em parte o colchão cambial de bancos e de empresas. Objetivo: encarecer a já onerosa proteção cambial em dólar, de alto risco, oferecendo ao mercado estressado a opção da mesma proteção cambial em real, remunerada em títulos federais, de baixo risco.
Balanços
- A Comissão de Valores Mobiliários (CVM), xerife do mercado de capitais, também foi acionada para amaciar o choque da desvalorização do real nos balanços das sociedades anônimas. Elas poderão espalhar por quatro exercícios anuais a diluição (diferimento) das perdas cambiais em 2001. Isso igualmente reverte a demanda por dólar ou por ''hedging''.
Tem mais?
- Diretor de Política Monetária do Banco Central, Ilan Goldfajn disse, sexta-feira, à Agência Estado: ''Talvez seja demais dizer que nosso arsenal é infinito. Mas também é prematuro dizer que o arsenal já tenha se esgotado...''
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