Joelmir Beting
''O mercado não é uma criação divina. É uma invenção humana. Pode falhar. Mas costuma falhar bem menos do que o governo.''
Robert Reich, economista americanoNa mancha de óleo
O mercado americano é assim: porque na segunda-feira o preço do petróleo despencou 15% na boca do poço, o preço da gasolina, já na terça-feira, desabou 12% na bomba do posto. O governo brasileiro é assim: porque o preço do petróleo importado caiu cerca de 20% no ano, seu ilustre derivado vai ser pela quarta vez aumentado a partir do próximo sábado, dia 6.
Yes, o governo ainda decreta aumento com aviso prévio. E em prazo adequado para que o mercado por ele tutelado se permita o lance especulativo imperdível de antecipar compras e/ou protelar vendas, manipulando estoques. Mui sábio.
Nosso governo interventor vai ainda mais longe: estabelece calendário de reajustes trimestrais para os combustíveis em geral, (re)indexando-os pelo tipo ''brent'' da Opep e pela correção cambial do dólar irreal. O governo confessa ao mercado que essa tungada tem a ver com a compensação contábil da conta-petróleo da variedade caixa-preta, vulgo PPE. Ou seja: o governo conseguiu fazer do petróleo uma conveniência fiscal e não um desafio energético.
Que o diga a Petrobrás, gigante estatal. Ela ensaia fechar o ano com lucro recorde de R$ 12 bilhões. Um bilhão por mês. Sobre ser uma estatal competente, diga-se a bem da verdade, a Petrobrás desfruta do privilégio da dolarização também do petróleo nacional. Que já responde por três barris em cada quatro do consumo interno.
E o governo ainda chora lágrimas de crocodilo, preocupado com os impactos da disparada do câmbio na meta inflacionária (para cima) e na atividade econômica (para baixo). Desdolarizar o petróleo-é-nosso? Nem pensar. O governo não pensa sequer em desdolarizar a energia elétrica da binacional Itaipu, onde o parceiro Paraguai entrou apenas com o endereço de metade do lago pelo Brasil formado... Uma dolarização burra que só faz por desencorajar investimentos privados em transmissão e distribuição - em tempo de apagão.
Yes, diria Robert Reich, o governo erra mil vezes mais que o mercado. Tanto assim que vem aí a abertura terminal do mercado de combustíveis a partir de janeiro, dando um basta no tarifaço trapalhão. Claro, se o Congresso não menos trapalhão aprovar, ainda este ano, a emenda constitucional que substitui a PPE por um imposto oblíquo chamado Contribuição de Intervenção de Domínio Econômico (Cide) para os chegados. Sim, um prosaico imposto único para gasolina, diesel, querosene, gás de fogão.
Prosaico, pero ardido. O governo já pespega taxação de produto supérfluo na gasolina amarela de raiva, com extração fiscal do tipo perfume, cigarro ou cachaça. Num Brasil onde o transporte público ainda está menos para gente e mais para gado.
Opep mansa
- Enquanto isso, o cartel opepiano não se atreve a cutucar águia com vara curta e cuida de refrear a exploração comercial dos tétricos eventos de 11 de setembro. Ela nem sequer ameaça acionar o gatilho do corte de produção para quando o barril ''brent'' completar dez dias corridos abaixo do ''piso'' de US$ 22.
Vigília densa
- No plano político-militar, a coisa nunca esteve tão feia desde a Guerra do Golfo, há dez anos. Onde os barris de petróleo sempre se confundiram, histericamente, com barris de pólvora. Agora, até asneira em contrário, tudo não tem passado de um blefe de boca virtual contra um alvo idem.
Vacas magras
- A tibieza da Opep também tem a ver com as vacas magras (e loucas) do mercado. O consumo global está em baixa e a substituição do petróleo por fontes alternativas incentivadas resvala doravante da contingência energética para a conveniência estratégica. O Atlântico Norte chocado não mais se quer refém emocional do Oriente Médio.





