Joelmir Beting
''O melhor negócio do mundo é um banco brasileiro bem administrado. O segundo negócio do mundo é o mesmo banco mal administrado.''
Michel Batlouni, cardiologista (parafraseando Paul Getty sobre as 7 Irmãs do petróleo)Tirem o pé do tubo
Do leitor Ildeboni Pardini, de Santa Bárbara do Oeste, SP: ''Com crise ou sem crise, os governos nunca arrecadaram tanto e os bancos nunca lucraram tanto. Enquanto isso, as empresas brasileiras continuam produzindo tributos, juros e produtos, pela ordem. Modelo neoliberal? Uma ova!''
De fato, neoliberalismo verde-amarelo deve ser essa mão-de-gato planaltina de levantar a carga fiscal bruta de 24% para 34% do PIB nos últimos sete anos e de rebaixar o crédito bancário para produção e consumo de 33% para 26% do PIB nos últimos sete meses.
A carga fiscal brasileira (34%), em viés de alta, já é a maior do Terceiro Mundo e acaba de ultrapassar a carga americana (32%), em viés de baixa. Pior: carga fiscal de qualidade asinina, vitaminada por tributos indiretos em ''cascata'' (não repartíveis com Estados e municípios). São tributos realimentadores dos desequilíbrios sociais - por tratarem igualmente os desiguais. Pior ainda: carga fiscal sem retorno público equivalente em Saúde, Educação, Previdência, Segurança e Justiça. Autêntico estelionato tributário.
Ou, como escreve Antonio Delfim Netto, que já esteve lá, com carga então de 23% do PIB (e crédito de 76% do próprio): ''Estamos asfixiados pelo sistema tributário mais irracional da economia moderna. Sobre concentrar a renda social, ele distorce preços relativos, subverte a concorrência (sonegação cada vez mais competitiva), encoraja a informalidade, obriga-nos a exportar impostos (num mundo que prefere exportar subsídios), discrimina a poupança e o trabalho e inviabiliza investimentos (re)produtivos. Tudo isso em nome do discurso neo-estatal da irredutibilidade das despesas de governo.''
E que tal o crédito bancário de apenas um quarto do PIB? É simplesmente o menor do planeta capitalista. Abaixo de um terço da média global IIF (82%). Fica pela metade da oferta bancária da China (53%), que ainda está comunista. Seria uma covardia comparar com a farra coreana, da ordem de 135% de um PIB outra vez em expansão. Sem inflação de demanda...
Ah! Para tentar cercar em campo aberto o frango doido da especulação cambial, liderada pelos nossos bancos de Midas, o governo reinventa o recolhimento compulsório de depósitos a prazo. Se não derrubar o dólar, nada a perder: desloca-se boa fração da poupança coletiva destinada ao financiamento do setor privado produtivo para o setor público não produtivo. Cujo endividamento mobiliário rosca sem-fim segue o preceito rasteiro: dívida pública não se paga; rola-se.
Secos & molhados
Nunca perder
- Arrocho na liquidez bancária mais curta e mais cara do mundo? E daí? Os bancos nunca perdem e já estão salvando o deles: alargam ''spreads'' livres e empinam juros idem. É a perversa lógica bancária do ganhar cada vez mais sobre cada vez menos.
Uma extorsão
- Do Bacen: a tomada de crédito privado caiu de 33,3% do PIB em 2000 para 26,2% agora em 2001 (Bacen). Essa marcha à ré bancária, para um PIB que, malgrado estressado, ainda cresce 2,5% no ano, tem a ver menos com o arrocho pelo lado da oferta e mais com o garrote pelo lado da demanda. Extorsivo, tornou-se proibitivo.
Até quando ?
- Ainda o Bacen: na produção, os empresários pagam de 25,7% a 60,1% ao ano. No consumo, os prestamistas expiam tungadas de 44,3% a 158,8% ao ano. Eles não se defendem, mas se vingam: a inadimplência (atrasos acima de 180 dias!) já está em 6,3%. Sim, os bancos invictos livram-se dessas supostas perdas simplesmente elevando os juros extraídos dos clientes pontuais.
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