Joelmir Beting
''Todo governo deve ser avaliado não só pelo que faz ou pelo que deixa de fazer. Também pelo que impede que seja feito.''
Jerry Brown, político americanoErguendo as pontes
Num longo ciclo de enchentes anunciado, qual seria a decisão adequada? Rebaixar o leito dos rios ou elevar o nível das pontes? Pois essa escolha informa a política de comércio exterior das nações emergentes extrovertidas, as menos vulneráveis ao novo choque de ''aversão ao risco'' dos capitais sem bandeira. No vendaval do déficit externo em conta corrente, entre rebaixar as importações no tapa, eles preferem elevar as exportações na marra.
Servidos pelo modelo japonês na estrepitosa arrancada dos anos 50/60 e pela vitoriosa clonagem coreana dos anos 70/80, os emergentes asiáticos cuidam de exportar o máximo - de tudo para todos. Eles se financiam pelas lojas do mundo e não pelos bancos do mundo. Incluídas as gordas compras externas de tudo e de todos.
Sim, eles não têm obsessão do superávit pelo superávit comercial. Nem mesmo a China retardatária, sentada em superávits comerciais desde a virada dos anos 90. A ordem é fazer do comércio exterior, nas duas mãos, o reator do próprio mercado interno, com sobras para a afirmação nacional. Ou como está escrito no livrinho azul de Xiaoping: mais vale um déficit para um intercâmbio do tamanho de 40% do PIB do que um superávit para uma troca equivalente a 20% do PIB. O intercâmbio coreano é de 71% do PIB.
A carapuça desce até os tornozelos inchados do Brasil caramujo, com intercâmbio abaixo de 20% do PIB. Fiados na escola cepalista dos mercados murados, nossos produtos e serviços, em mais de três quartos da pauta embarcada, não estão sendo vendidos de dentro para fora. Continuam comprados de fora para dentro - entre dois bocejos de tédio do ''export drive'' botocudo.
Eis que o governo brasileiro, na base do ''fomos pegos de surpresa'', acaba de dispensar às exportações o ''status''' político de economia de guerra - em tempo da própria. Esfolado no câmbio ingrato de mercado e entalado no rombo externo em conta corrente, o governo dá luz ao apagão comercial com a criação imaginosa da Câmara de Gestão de Comércio Exterior (Gecex).
Exposição de motivos: 1) é preciso coordenar as ações de governo no ''front'' comercial, até aqui morosas, dispersas, paralelas, superpostas, quando não conflitantes; 2) é preciso costurar lances táticos em parceria com o setor privado, carente de interlocução competente e expedita; 3) é preciso estabelecer um centro de decisão com poderes especiais, por cima ou ao largo dos Ministérios, capaz até mesmo de baixar medidas pontuais sem consultas prévias; 4) é preciso, fechando a roda, desonerar as exportações nos tributos, nos créditos, nos seguros, nos carimbos, nas arbitragens, nos projetos, nos transportes e nas promoções.
Claro, se a Gecex, investida de plenos poderes, conseguir realmente passar pelo cadáver da Receita Federal...
Secos & Molhados
Paradigma
- Depois de inventar e esgotar a contabilidade pública por ''esqueletos'', o Brasil inventa e testa políticas públicas de susto por ''apagões''. O da energia deu à luz a Câmara de Gestão da Crise. O novo apagão cambial (e não propriamente o velho déficit comercial) é que coloca em órbita a Câmara de Gestão das trocas com o mundo.
Emperrado
- O presidente da Gecex é o ministro Sérgio Amaral, titular do poroso Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior. Ele fica por cima dele mesmo. A própria maquinação da Gecex vale pela confissão tácita de que o governo em bloco não funciona. Em compartimentos estanques, menos ainda.
Promessa
- Em 1997, tempos bicudos de câmbio enjaulado, o presidente FHC prometeu acelerar as exportações para até US$ 100 bilhões (a dólar de 1997), em 2002. Reeleito em 1998, o presidente renovou a promessa do batismo. Fácil: é só cobrar da estreante Gecex um aumento de 80% nos embarques do ano que vem. Com ou sem recessão mundial. Que tal?
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