Joelmir Beting
''Sim, não tenhamos pressa. Mas não percamos tempo.''
José Saramago, escritor portuguêsAversão ao risco
O dólar não conseguiu ontem recuperar-se do tombo de 4,08% na véspera. Deu a impressão de ainda estar ruminando o banquete da semana passada, com valorização acumulada de 14%, digna do pico de R$ 2,83 na sexta-feira negra - por cima ou ao largo de seis leilões de títulos cambiais no mesmo dia.
Em mercado tipo bolsa, as cotações são tão seguras quanto os aviões. A estatística demonstra, nas barbas da engenharia, que 100% dos aviões que sobem, descem... Quando, como e onde os aviões (e as cotações) descem, isso não interessa, diria Bin Laden, principal corretor do terror genocida.
E, porque o próprio Bin Laden é uma agulha no palheiro da retaliação cirúrgica americana, o mercado cambial brasileiro tende a continuar paranóico. Ou como já foi gravado aqui: se até um aumento do déficit fiscal na Turquia fazia o dólar disparar no Brasil, em regime de crise sem causa, agora a crise é real, sobre ser tétrica.
Compete, pois, à autoridade monetária, no cangote do tal de ''mercado'', sopesar os limites de cada soluço cambial no dia ou na semana. Espécie de ressonância magnética do coeficiente de sustentabilidade (ou não) do atual ''overshooting'' cambial. Em jogo, a proteção (''hedging'') de ativos e/ou passivos privados já dolarizados da ordem de US$ 410 bilhões. O problema é que a rotação diária do mercado cambial à vista não tem passado de 1,1% disso.
Nesta altura do calendário, a aversão ao risco dos investidores de risco nada tem a ver com os ''fundamentais'' da economia brasileira. Sequer com os ''fundamentais'' do nosso balanço de pagamentos, refém de uma transfusão externa anual de US$ 55 bilhões em tempo de torneiras minguantes para os emergentes. O complicador agora não é mais o da crise sem causa. É o risco virtual da guerra real.
Nos cálculos do Institute of International Finance (IIF), remontados na semana passada, o fluxo 2001 de capitais de empréstimo e de risco para os países retardatários deve fechar o ano com redução de 36% sobre o fluxo 2000. Para o Brasil, corte de 41%, segundo o IIF. Que é do ramo. Esse instituto privado representa os 320 maiores bancos do mundo.
Pelo sim, pelo não, o governo brasileiro tenta turbinar o caixão sem alças da balança comercial - com pelo menos uma década de atraso. Algo que só aliviaria a pressão sobre o câmbio se pudesse cometer o milagre bíblico da duplicação das vendas externas em seis meses. Em seis anos, diria Keynes, ''estaremos todos mortos''.
E que tal o atalho da contenção induzida das importações? Não seria o caminho ajuizado. Exigiria um choque recessivo perverso.
Secos & Molhados
Compulsório
- Eis que entra em cena o recolhimento compulsório de 10% sobre depósitos a prazo (trocados por títulos públicos). Um corte na liquidez bancária, com redução ainda maior do crédito para produção e consumo. Dieta forçada de emagrecimento para um organismo econômico já de perfil anoréxico.
Linhas tortas
- Objetivo do compulsório temporão: forçar bancos e clientes sentados em dólar a desovar parcelas da blindagem cambial no giro dos negócios internos. Sem levantar os juros na base da dívida pública. A ordem é elevar ainda mais os juros na ponta da dívida privada. Para variar.
Outra opção
- Delfim Netto diz que faria algo diferente: sacaria do FMI o sinal verde para a atuação do Banco Central no mercado futuro, onde daria para o ''hedge'' cambial uma cobertura em reais na BM&F. A dívida pública adicional não cresceria pelo câmbio e o investidor trocaria um ''hedge'' oneroso (em dólar) por um ''hedge'' remunerado (em real).





