Joelmir Beting
''Há séculos discute-se furiosamente o que os governos devem fazer. Que tal discutir só aquilo que os governos realmente podem fazer?''
Peter Drucker, em The Unseen Revolution (1976)Terror cambial
Até para dar uma ''satisfação à sociedade'', o presidente Fernando Henrique Cardoso esteve reunido ontem com a equipe econômica para o trato político da (re)corrente convulsão cambial. Tentativa palaciana de cercar frango doido em campo aberto.
Duas forças telúricas movem o câmbio nestes tempos de cólera: a clássica ''indústria do hedging'' e a indefectível ação em bloco dos especuladores, os ''chacais da moeda'', na sentença de De Gaulle. Ou como já escrevia John Kenneth Galbraith, em Economics & The Public Purpose (1973): ''Os movimentos especulativos são inerentes a mercados tipo bolsa. Pois o câmbio flutuante é a maior, a mais antiga e a mais livre de todas as bolsas.''
A cavalo das corcovas do câmbio flutuante, desde janeiro de 1999, o mercado brasileiro ainda não tem jeito nem treino para testar na oscilação diária do dólar os chamados ''fundamentais'' da economia ainda em transe. Não há ajuste técnico para um mercado que não é, não pode nem quer ser técnico. Consta que o sociólogo presidente entende que tal mercado deva ser técnico.
Tecnicamente, o dólar estaria valendo, nesta travessia de setembro, algo parecido com R$ 2,34 (já incorporados os estragos do primeiro semestre). Ou cerca de R$ 2,17, se aplicado o critério da paridade do poder de compra do real no mercado interno. Logo, acima de R$ 2,80 (a caminho de R$ 3,50?), o dólar verde-amarelo de susto já pode ser pintado como um mico do tamanho de um gorila. Ou será que essa máxi real de quase 50%, em apenas nove meses, teria sustentação prolongada em mercado tipo bolsa, movido a efeito manada para o alto e efeito manada igualmente para baixo?
Pelo sim, pelo não, o governo examinou ontem a hipótese de um ''overshooting'' cambial realmente duradouro. No caso, usinado não pelos ''fundamentais'' do nosso balanço de pagamentos, mas pelo tétrico Efeito Taleban, em escala global. Qual seja: a expectativa rosca sem-fim de um revide militar cirúrgico ainda sem prazo, sem rumo, sem alvo. Era da incerteza é apelido, diria Galbraith.
Cabe lembrar que os mercados de bolsas, fundos e moedas se deixaram sobressaltar, em meio mundo, desde o ''crash'' asiático de 1997, por fantasmas de todo tipo e de qualquer grau. Bastava um novo déficit fiscal na Turquia e lá se ia o planeta sem juízo para uma nova ''crise global''. Em outubro de 1999, ainda na crista da ''irrational exuberance'' em Wall Street, as bolsas vieram abaixo simplesmente porque a Cisco havia apurado lucros trimestrais de 7,1%, contra uma ''expectativa do mercado'' de até 9,5%...
Pois agora o fantasma realmente existe. Ainda é intangível, mas já esguicha sangue. E ganha um poderoso aliado: o terrorismo cambial dos ''chacais da moeda'', com trânsito livre aqui no Brasil.
Secos & molhados
Opção 1
- Pisando assim em campo minado, nunca dantes mapeado pelos catastrofistas congênitos da análise econômica, o Banco Central do Brasil teria como primeira opção não fazer nada porque nada ou muito pouco poderia ser feito. Sim, diante de uma paranóia cambial movida a pânico global.
Opção 2
- Adensar medidas clássicas de intervenção oblíqua no mercado flutuante: a) operando no mercado à vista, no limite dos pisos de segurança das reservas; b) ''dolarizando'' a rolagem da dívida pública em leilões de títulos cambiais para alargar a base do ''hedging'' dos investidores; c) inaugurando o ''hedging'' também nos mercados futuros ou de derivativos (se o FMI deixar).
Opção 3
- Restabelecer a centralização do câmbio em nome da ''economia de guerra'' em tempos realmente de cólera. Idéia descartada pelo governo. Diz o presidente do BC, Armínio Fraga: ''Algo mais que uma besteira, a simples cogitação dela, nas atuais circunstâncias, constitui um ato irresponsável e impatriótico.''





