Joelmir Beting
''Os eventos políticos parecem mais incertos que nunca. Mas os cenários econômicos não são tão sombrios quanto os céus de Nova York.''
Rudiger Dornbusch, economista teuto-americanoSegurança econômica
Os governos acabam de rebaixar os juros na base do sistema interbancário. Na expectativa de que os bancos venham a reduzir os juros na ponta dos empréstimos. Expectativa usinada por uma medida de guerra: a manutenção da liquidez dos mercados, a ferro e fogo, por tempo indeterminado, se preciso.
Em bloco, bancos centrais dos Estados Unidos, da União Européia e do Japão decidiram contemplar o sistema produtivo com uma blindagem bancária já da ordem de US$ 175 bilhões. Chega da paranóia acadêmica movida a trancos de austeridade monetária e a choques de garrote fiscal. Keynes neles!
Essa guinada, esboçada na semana passada, ainda sob o fogo dos infernos em Wall Street, segue um objetivo meridiano, de quatro rodas: 1) recepcionar a corrida aos empréstimos pelas empresas (e famílias) diretamente atingidas pelo terror da covardia suprema; 2) financiar as atividades de reconstrução em Manhattan e de segurança patrimonial em meio mundo; 3) amainar o pânico pavloviano dos investidores em bolsa; 4) preservar a confiança dos consumidores na economia do presente e na renda do futuro.
Os consumidores americanos funcionam como reator de 68% de um PIB anual de US$ 9,7 trilhões (a preço médio de 2000). Os investidores fazem girar em bolsas e em fundos e bancos uma poupança coletiva de US$ 14,7 trilhões (valores de mercado em julho).
Pois bem. O lado investidor da sociedade americana saiu ileso da prova de fogo de ontem: as bolsas não desabaram. O chamado ''efeito riqueza'' do capitalismo popular americano sobrevive ao ''doomsday'' de 11 de setembro de 2001. Ele já vinha de um severo ajuste purgativo desde 11 de março de 2000.
As quedas nos Índices da Nasdaq, na Nyse e do S&P 500 ficaram de bom tamanho ontem na reabertura dos pregões de Wall Street. É bom lembrar que as bolsas se deixam sobressaltar a troco de quase nada. Ou por algum novo déficit fiscal na Turquia ou por um declínio trimestral nos gordos lucros de uma Cisco ou de uma Exxon.
O importante é que estamos a bordo de um primeiro pacto político global sobre segurança econômica. Algo impensável antes da dantesca imolação de Manhattan - igualmente inconcebível. Os governos vinham codificando as turbulências financeiras na categoria de eventos naturais de um sistema recentemente globalizado e ainda canhestramente desregulamentado. Com direito a fuzarcas cambiais intermitentes e a ''exuberâncias irracionais'' por sua própria conta e risco. Agora, ao largo da leniência do FMI e da impotência do BIS, governos e empresas passam a investir em segurança econômica, lastro físico da estabilidade social e da reafirmação política.
Secos & Molhados
Resposta
- O economista Rudiger Dornbusch, do MIT, aposta em pacotes keynesianos made in Washington. Virou decisão de cunho militar não mais deixar a economia americana resvalar para a recessão. E o que não falta, segundo ele, é excedente econômico no setor público e no setor privado para manter o sistema produtivo no prumo e no rumo.
Reserva
- A reserva de potência da águia em choque está nos cortes de juros e de impostos autorizados pelo excedente econômico, escreve Dornbusch, em jornais de meio mundo: ''A desaceleração ocorreu antes da tragédia. Pois a tragédia tende a antecipar o reaquecimento econômico, induzido por medidas monetárias e fiscais de padrão economia de guerra.''
Espírito
- Claro, se tais medidas retemperarem a confiança dos consumidores americanos. Confiança, anteriormente aos atentados, em seu nível mais baixo em sete anos. Cáustico como sempre, Dornbusch ironiza: ''O mais difícil é recuperar a confiança dos analistas econômicos, mestres do pessimismo e do desânimo.''
www.joelmirbeting.com.br
[email protected]





