Joelmir Beting
A bola de cristal dos cenaristas econômicos, agora embaçada pela fumaça do inferno que desabou sobre Wall Street, está dividida ao meio. Metade deles sustenta que o planeta chocado vai resvalar para a recessão. A outra metade entende que, bem ao contrário, a decretação oficial do estado de ''economia de guerra'' vai relançar o vôo da águia americana, que já estava devagar, quase estolando.
A ressalva: os cenários pessimistas, em qualquer situação, são levados a sério. Seus autores desfrutam de credibilidade gratuita. Eles se sentem encorajados por um duplo resseguro profissional: a) se a sinistrose se confirma, despontam incensados como gênios; b) se ela não ocorre, a explicação já está enlatada - ''... é porque tomaram providências com base em nossas advertências''.
É bom lembrar que a vida econômica não é feita de quilos, litros, metros e cifrões. É feita de gente. Logo, os cenaristas econômicos teriam de dar carona a todo um naipe de cientistas sociais. Afinal, os mercados são reféns das expectativas racionais e não-racionais das pessoas ou das famílias.
Tanto assim que a Universidade de Michigan deu de juntar Friedman com Freud para resumir toda essa prospecção esotérica no tal de índice de (des)confiança dos consumidores... Um indicador de interesse meramente acadêmico: os professores telefonam para 250 famílias da região, na primeira semana de cada mês, e eis consumada a façanha: levantam o ''estado de espírito da sociedade americana'' em relação ao presente e em relação ao futuro. O primeiro indicador vale como índice de (in)satisfação. O segundo, como índice de (des)confiança.
Será que os questionários de 250 conterrâneos teriam massa crítica para refletir os sentimentos de 280 milhões de consumidores?
Pois o Fed aposta todas as fichas e juros nessa sondagem mensal restrita e estanque. Os empresários, também. E os executivos financeiros, cartomantes por dever de ofício, deitam, rolam e esfolam sobre os resultados de cada mês.
Quinta-feira, 13, saiu o rastreamento de setembro. O índice de satisfação (no presente) caiu de 101,2 pontos na primeira semana de agosto para 93,5 pontos na primeira semana de setembro. E o índice de confiança (no futuro) baixou de 85,6 para 77,2. O índice casado e ponderado, o mais utilizado, caiu de 91,5 para 83,6. Pela primeira vez, em sete anos, abaixo de 90 pontos. Sim, perda continuada de satisfação e de confiança apurada ainda antes do ''Dooms Day'' de terça-feira, 11.
Secos & Molhados
Ansiedade
- A próxima sondagem, já sob os efeitos da dantesca imolação de Manhattan, só estará fechada em 5 de outubro. Ainda com três semanas para a decantação dos horrores e dos temores da população americana.
Mistério
- Seria prematuro antecipar o ''estado de espírito'' dos consumidores americanos lá na primeira semana de outubro. A chutometria poderia oscilar de uma depressão coletiva sem paralelo a uma rebrota colérica do orgulho nacional no plano político, com efeitos tonificantes na atividade econômica.
Otimismo
- Na banda otimista da bola de cristal, duas ponderações do Instituto Real para Assuntos Internacionais, de Londres: 1) processos econômicos erradios passam a ser monitorados nos países centrais por decisões políticas orquestradas; 2) os Estados Unidos devem acionar neste ''grito de guerra'' (com endosso popular) o maior excedente econômico da História - que se conta aos bilhões no setor público e aos trilhões no setor privado.





