Joelmir Beting
''A civilização só desperta e avança quando fustigada pela tempestade.''
Arnold Toynbee (1889-1985), historiador inglês
Sem recessão
Acabou o charme frívolo da crise sem causa. Crise global intermitente, fabricada nos desvãos dos mercados financeiros. Onde, segundo Paul Krugman, ''garotos de 29 anos'' manipulam as neuras da especulação por dentro da economia real. Com toda a sociedade refém a bordo dela. O tal de rabo que abana o cachorro. Sinergia de fuzarcas cambiais dos mercados com gandaias fiscais dos governos.
O cataclismo americano, produzido pelo terrorismo da covardia suprema, vestida de ousadia máxima, exatamente no coração financeiro do Planeta sem juízo, tende a levar governos e mercados a operar a quatro mãos para aliviar a aflição dos aflitos. Afinal, governos e mercados têm instinto animal de conservação.
Chega, pois, de aumentar impostos e de elevar juros para tão-somente recauchutar estragos cambiais e fiscais perpetrados pelos mesmos mercados e governos. A ordem é não mais dar pelota a crises, bolhas e neuras de uma Nasdaq, de uma Turquia, de uma Argentina ou de uma Brasília.
Muito menos, dar olhos e ouvidos aos arautos do fim do mundo. Eles rebrotam agora na mídia coisa-preta para anunciar ''maior recessão mundial de todos os tempos''. Analistas alarmados e alarmistas, eles estão projetando para o futuro o estado de choque do presente - e não o ajuste que se seguirá ao choque.
Por linhas tortas e trágicas, a percepção coletiva da insegurança física sem fronteira, por sobre milhares de perdas humanas em Wall Street, abre o sinal verde para um primeiro pacto global de segurança econômica. Bancos centrais iniciam um banho de liquidez em cadeia. Cartéis do petróleo reabrem válvulas para resfriar cotações. Governos anunciam a liberação tempestiva de fundos e estudam a redução orquestrada de juros. Relançar a economia, desaquecida por seu próprio risco, é dar uma solene banana ao terrorismo.
Eis a questão. De Bush a Greenspan, passando por O'Neill e Powell, a desaceleração econômica deixa de ser tratada como mera contingência de mercado. A reaceleração da locomotiva global passa a ser encarada como conveniência política para a ''pax americana'' que se pilha em estado de guerra. Uma depressão global em cascata, movida a pânico, seria o objetivo supremo do terrorismo assim vitorioso.
No plano geopolítico, a biruta também já virou. Se o terrorismo ainda desfruta do escudo político da impunidade local não mais desfila, desde terça-feira, do refúgio leniente da impunibilidade internacional. Sequer, doravante, da cumplicidade amoral dos que, em explicando a barbárie, capricham em justificá-la.
Secos & Molhados
Em choque
- Por natureza, seguros e viagens são os mercados direta e imediatamente impactados pelos horrores de Manhattan. Com sobras para os negócios do turismo, do show biz e do sport biz, realizados em estádios e arenas tão seguros quanto os aeroportos americanos. Ou os presídios brasileiros. O desempenho de bolsas e moedas, nesta quadra de estupor, não serve de referência. Elas são do ramo do sobressalto.
Em marcha
-
Em compensação, a indústria da garantia física de governos, empresas, cidades e instituições entra em ''boom'' de demanda de produtos e de serviços. Em quase todo o mundo, Brasil no meio.
Em bloco
- Cientistas políticos apressam-se em ponderar que o terrorismo sem fronteiras igualmente precipita os países para os acordos multilaterais até aqui reticentes de comércio e de cooperação econômica. Começando pela reinstalação da Rodada do Milênio da OMC, rechaçada por baderna de rua em Seattle, em novembro de 1999. Arruaça não mais tolerável em Dohua, em novembro de 2001.
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