Joelmir Beting
''O capital é como o vento: só entra onde tem saída.''
Provérbio árabe
O sininho e o gato
Nos dois lados do Atlântico Norte, credores do mundo, abre-se a discussão de três propostas abrasivas: 1) o perdão formal da dívida externa de países historicamente estrebuchados; 2) a reestruturação negociada e favorecida da dívida externa de países tecnicamente insolventes; 3) o controle global dos capitais voláteis não-produtivos.
Por partes. A anistia da dívida externa contratada por países sem presente e sem futuro, abaixo da linha da pobreza universal, equivale ao reconhecimento do calote já consumado. Com todos os riscos do chamado ''moral hazard'': o incentivo ao calote em cascata ou o estímulo à gastança e à corrupção com poupança alheia. Sem contar que os países mais pobres do mundo são exatamente os que ainda hoje gastam mais em canhão do que em pão.
A reestruturação negociada da dívida externa rosca-sem-fim de uma Rússia, de um Equador, de uma Turquia, de uma Argentina ou de um Brasil corresponde à lógica bancária da ''moratória construtiva'' (a de ceder os anéis para salvar os relógios). Idéia agora reavaliada por acadêmicos americanos e por governantes europeus. Ainda que exumada com pelo menos 13 anos de atraso. Em 1988, corolário da década da debt crisis, havia nada menos de 34 países em moratória, Brasil no meio. Hoje, apenas um - o Equador.
O controle global dos capitais voláteis, que De Gaulle preferia chamar de ''os chacais da moeda'', tem de aceitar a premissa leonina: ou todos os 178 países membros do FMI fazem rigorosamente o mesmo tipo de controle ou o jogo vai melar na primeira botinada. Haveria ''paraísos de capitais'' na mesma linha dos intocáveis ''paraísos fiscais''. Com a diferença: o paraíso fiscal do dinheiro sujo pode ser uma ilhota do Caribe. O paraíso do capital sem bandeira e sem barreira poderiam ser os Estados Unidos. Sem contar a Suíça, que sempre foi desse ramo.
Enquanto o jornal Valor informa sobre o projeto da ''moratória construtiva'', defendido pelos economistas americanos Alan Meltzer e Adam Lerrick, o Estado relata a adesão dos chanceleres europeus Lionel Jospin (França) e Gehard Schroder (Alemanha) à idéia da tributação punitiva dos capitais especulativos na linha da Taxa Tobin, modelada pelo professor James Tobin, Prêmio Nobel de Economia.
França e Alemanha discutiram, quarta-feira, em Berlim, a conveniência de arredondar uma versão européia da Taxa Tobin para a assembléia anual do FMI, no fim do mês, em Washington. O que certamente empolgaria toda a agenda do encontro, ainda que gerando mais calor do que luz. Até porque a Taxa Tobin já virou bandeira vermelha dos quixotescos militantes da antiglobalização.
Secos & Molhados
Não é viável
- Que tal ouvir o próprio James Tobin? O jornal Valor fez isso na semana passada: a idéia é tecnicamente viável, mas o momento não é economicamente aconselhável, suspirou ele. Ponderando: a desaceleração é universal e os países mais necessitados de capital de (re)financiamento seriam os mais prejudicados pela quebra da correia de transmissão da liquidez global.
Sininho no gato
- Sim, a taxação do capital volátil é uma idéia genial. O problema é saber quem, como e quando vai conseguir colocar o sininho no pescoço do gato. Afinal, os especuladores é que sustentam a liquidez dos mercados. E, sem liquidez, os poupadores hibernam e os investidores desistem.
Em tempo real
- Há igualmente um complicador tecnológico no pedaço: o advento da moeda digital. Ela se permite o luxo de dar a volta ao mundo em menos de um segundo. Foi a globalização dos ativos online que produziu a desregulamentação dos mercados financeiros. E não o contrário.





