Joelmir Beting
''O Brasil nunca foi um país capitalista. Sempre foi um país capinanceiro.''
Roberto Campos, diplomata e escritor
Endividar ou morrer
Sim, quem não tem o capital do sócio anônimo caça com o crédito ou a dívida no banco da esquina. A poupança que transita pelo mercado brasileiro de capitais (no primário de balcão e no secundário de bolsa) responde por menos de 3% do total dos ativos financeiros de indivíduos, famílias, empresas, fundações e governos. Nos países capitalistas, sem aspas, essa participação oscila acima de 40%.
O recurso do sócio é o capital mais barato da praça. Não é um exigível com data marcada. Participa do lucro só quando a empresa apura lucro. E, se ela dá lucro, o sócio tende a reinvestir a fatia que lhe cabe do próprio. Diferentemente, o dinheiro de aluguel do credor exige retorno com prazo fixo, movido a juros e engordado por prêmios de risco. Não raro, retorno antecipado. Nem espera pela conclusão do projeto financiado.
No Brasil, purgatório do sócio e paraíso do credor, a economia se deixa financiar pelo crédito bancário mais curto e mais caro do mundo. Até por falta de alternativa do mutuário, na base do quem não deve não tem. Para os bancos brasileiros, não por acaso os mais rentáveis do mercado global, emprestar dinheiro é algo mais que fazer excelente negócio: é fazer favor ao cliente esfolado (e mui agradecido).
Eis o pano de fundo do protesto que os operadores da Bovespa reprisam nesta quinta-feira em São Paulo, véspera do ''Brazil Day'' em Wall Street. O mercado brasileiro de capitais errou o caminho e voltou para trás. Pior: deu de trocar São Paulo por Nova York. Ou como diz a faixa espetada na Bovespa: ''Exportar ou morrer? Exportar a bolsa é morrer.''
O cemitério dos sonhos desfeitos do capitalismo popular brasileiro tem novas lápides em latão: 1) o volume diário de negócios despencou de R$ 1,2 bilhão, em 1997, para menos de R$ 400 milhões, em 2001; 2) no mesmo período, o número de operadores baixou de 1.100 para 340; 3) por tabela, o total de empregos qualificados nas corretoras sofreu um corte de dois terços, caindo de 45 mil para 14 mil.
Para aumentar ainda mais a aflição dos aflitos, em pé de greve, o governo sem grandeza não abre mão da CPMF na rotação máxima de bolsa e avisa que vai aumentar de 10% para 20% o IR na fonte sobre ganhos de capital em ações. Ah! E promove festa, amanhã, no ''Brazil Day'' da Bolsa de Nova York - onde 27 grandes empresas brasileiras chegam a negociar 10 vezes mais do que residualmente movimentam na bolsa verde-amarela de hepatite.
Não menos festivamente, o governador nacionalista Itamar Franco acaba de anunciar, para o dia 18, a estréia da estatal Cemig na globalizante Bolsa de Nova York.
SECOS & MOLHADOS
Corretagem
- Operadores de bolsa e corretores de ações não seriam carreiras em processo de extinção, na mesma sina da ariranha e do mico-leão? Vem aí o mercado online, a bordo da futura banda digital de largura infinita. Até mesmo corretoras ligadas a bancos, posseiras de mercado cativo, começam a passar do azul para o vermelho.
Abordagem
- Nesta semana do ''Brazil Day'', em Wall Street, São Paulo hospeda Sir David Howard, prefeito da City, distrito financeiro de Londres. Ele veio vender a opção da bolsa londrina - onde a listagem, a emissão e a transação custariam para as empresas brasileiras pouco mais de um terço do que elas pagam em Nova York. Que já é menos da metade do que elas pagam aqui no Brasil.
Pelas bordas
- Por entre os escombros e entulhos do mercado brasileiro de capitais, esgueiram-se uma reforma meia-sola na Lei das S.As. e uma estrondosa rentabilidade dos que aplicaram o FGTS em ações da Petrobrás: em um ano, ganho líquido de 72%.





