Choque tarifário

Na teoria, o reajuste cavalar dos combustíveis não passa de um espirro estatístico. Na estimativa da Fipe, ele deve produzir um adicional inflacionário de 0,22 ponto percentual agora em dezembro, com rescaldo de mais de 0,25 em janeiro. Muito ou pouco? Um espanto! Significa mais que dobrar a inflação nesta virada do ano.
Antes do anúncio da ‘‘reestruturação tarifária dos combustíveis’’, na semana passada, a Fipe admitia fechar o ano com inflação gregoriana de um dígito - pela primeira vez desde 1957, arrancada da gastança juscelinista de Brasília.
Com o choque tarifário dos combustíveis, a inflação anual de um dígito fica com a corda no pescoço. E não por aquele ‘‘multiplicador inflacionário’’ teoricamente calculado pela econometria do ramo. Mas por um efeito em cascata bem maior que normalmente acompanha os reajustes dos combustíveis, especialmente o do óleo diesel.
Seguinte: o reajuste do óleo diesel tende a ser repassado com muito exagero ou ganância para o reajuste do frete. E o reajuste do frete tende a ser repassado com muita ganância ou exagero para o reajuste da carga. E o reajuste da carga tende a ser repassado com muita esperteza ou ignorância para o reajuste do atacado e do varejo. Ou seja: o impacto teórico de 0,22 em dezembro, em plena excitação natalina, pode cravar 0,50 ou 0,70, por que não?
Teoricamente, não. Para o governo, não se estão remarcando os preços finais no posto da esquina e, sim, os preços das refinarias para as distribuidoras. Ora, as distribuidoras, que vinham operando com margens estreitas, não terão como deixar de repassar o reajuste para os varejistas.
E os varejistas? Conseguirão absorver com casca e tudo o segundo tranco em oito meses dentro da prometida ‘‘anualidade tarifária’’? O governo aposta nisso. Os postos estão engolfados por uma concorrência capilar realmente canibalesca. Forçados pela competição corpo a corpo ou posto a posto, os varejistas estão com os preços reais deflacionados. Isso não aparece no registro das bombas, só no registro dos balanços. Uma redução vestida de pré-datados de até quatro meses, oferta de serviços gratuitos, descontos especiais e mesmo sorteios de automóveis. Será que eles ainda têm elástico para puxar?

SECOS & MOLHADOS

Inadiável?

- Mais que duplicar a inflação brasileira de dezembro e janeiro é o custo da reparação contábil do caixa da Petrobrás. Havia necessidade de repassar para o distribuidor, o varejista e o consumidor um aumento acumulado de 44% nos preços do petróleo importado.

Uma bomba

- Não há como fugir disso. Ainda importamos metade do petróleo que consumimos. E no mercado mundial, que volta a se deslocar na direção da Opep, os preços são absolutamente imprevisíveis. No Golfo Pérsico, os barris vão continuar rimando com os fuzis. Uma bomba.

Caixa-preta

- Outro complicador é o da redução ou mesmo remoção dos subsídios cruzados na tabela de preços dos derivados, com sobras para o álcool carburante. A estrutura de preços para dentro do portão da refinaria ainda é uma caixa-preta. O reajuste tem a ver com isso.

Brincadeira

- Tudo bem. Então, por que não parar de brincar de ‘‘anualidade tarifária’’ nos combustíveis? Ela reprime custos, mas não suprime custos. Ela contrata choques tarifários. E jamais logrará acomodar nossa dependência externa a um mercado mercurial e inflamável.

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